Quero Ser Diretor de Cinema

*Por Katia Kreutz e equipe da Academia Internacional de Cinema

Diretor de Cinema é o profissional que faz as escolhas narrativas para transformar a história que está no papel em um filme.

“As pessoas podem dizer que existe um milhão de maneiras de filmar uma cena, mas eu acho que não. Acho que existem duas, talvez. E uma delas está errada.”

As palavras de David Fincher podem parecer radicais, mas elas definem exatamente a função do diretor de cinema: saber o que quer.

Por isso, a ideia desse profissional como um personagem muitas vezes autoritário e obsessivo pode se relacionar ao fato de que é preciso ser um pouquinho de tudo isso, sim, para lidar com tanta responsabilidade. Afinal, um filme de longa-metragem exige muito de uma porção de pessoas, mas o diretor é o fio condutor dessa história. É na cabeça dele que a narrativa do filme, de fato, se constrói.

Neste artigo, vamos responder às principais dúvidas sobre a carreira de um diretor de cinema:

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O que faz um diretor?

Direção Cinematográfica / Diretor de Cinema

Contar uma história é o que move um diretor de cinema. Essa é a função que atravessa todas as etapas do fazer cinematográfico, mas que se potencializa por meio das escolhas criativas e narrativas que o diretor vai fazer, desde a pré-produção até a finalização. Como o maestro de uma orquestra, ele conduz os outros profissionais a executarem sua visão para o filme.

David Mamet costumava dizer que um diretor de cinema tem duas funções: decupar e estar de bom humor. A decupagem nada mais é do que pegar um roteiro e imaginar o que está escrito em forma de imagens, criar uma atmosfera, transformar as palavras em cenas – visualizando enquadramentos, movimentos de câmera e demais aspectos imagéticos. Quanto ao bom humor, nada mais importante para alguém que precisa lidar constantemente com outros artistas e tirar deles o melhor trabalho possível.

Ser um bom líder, nesse caso, é essencial. Além de escolher os profissionais da equipe, o diretor será responsável por passar sua ideia para cada um deles, de modo que todos sigam a mesma linguagem e “façam o mesmo filme”. É importante saber comunicar o que você quer, para que os outros profissionais entendam o conceito, mas acima de tudo é preciso saber ouvir.

Martin Scorsese certa vez disse que o cinema é simplesmente uma questão de decidir o que está dentro do quadro e o que está fora. Já Stanley Kubrick afirmou nem sempre saber o que queria, mas que ele sempre sabia o que não queria. Se a função do diretor de cinema é contar uma história em forma de filme, e boa parte das decisões desse filme estão em suas costas, será que pode haver trabalho mais interessante, mas também mais difícil, num set de filmagem?

Dificuldades e desafios

Que dirigir um filme não é tarefa das mais fáceis, todo mundo sabe, até mesmo quem não faz a menor ideia do que se passa em um set de filmagem. Mas quais são as dificuldades reais que o diretor enfrenta, em seu trabalho? Quais seus maiores desafios?

Tudo parece muito simples no papel, até que alguém pegue uma câmera e resolva colocar atores falando e se movimentando em frente a ela. Aí surgem dezenas de pessoas oferecendo soluções para os problemas criados pelas páginas do roteiro. Nesse cenário que parece um tanto quanto caótico, a função do diretor é tentar fazer com que tudo fique o mais claro possível para todos os envolvidos, mesmo que no final não se consiga executar a história do jeito que está em sua cabeça.

Uma das maiores dificuldades do diretor é lidar com os imprevistos no decorrer da produção – e eles acontecem, muito mais do que se gostaria. É preciso tomar novas decisões todos os dias, dentro de circunstâncias muitas vezes inesperadas, sem comprometer a visão do filme. Também é preciso estar aberto a esses imprevistos, incorporando novas ideias que podem enriquecer o filme criativamente. Com certeza, não é um trabalho para quem curte rotina.

Além da pressão de conduzir esse processo do início ao fim, sem deixar que o conceito narrativo se perca, é preciso lidar diariamente com o ego – o seu e o da equipe inteira. Autoridade nem sempre quer dizer falta de humildade, e essa máxima vale no cinema como em qualquer outra profissão. Por isso, um bom diretor precisa ter consciência de que verá nascer o filme de forma mais completa do que qualquer outro profissional no set, mas que sem a colaboração e o trabalho dessas outras pessoas, nada disso seria possível.

Quais as responsabilidades de um diretor?

Tudo o que se refere a fazer o filme é, de maneira direta ou indireta, responsabilidade do diretor. Desde o roteiro até a captação de recursos, passando pela filmagem e pós-produção, cada pequeno aspecto pode influenciar a história criativamente, exigir mudanças, decisões.

Na pré-produção, o papel do diretor é fundamental para passar aos demais integrantes da equipe o conceito do filme – arte, fotografia, som e todos os elementos envolvidos na narrativa. É ele quem vai decupar o roteiro, ensaiar com os atores, definir as locações e ajudar a produção a decidir tudo o que for relacionado à narrativa.

Durante a produção, na filmagem propriamente dita, seu trabalho é dirigir as cenas, lidando com as dificuldades ou eventualidades que a equipe possa enfrentar para a realização do projeto. Normalmente, o diretor possui um monitor para assistir o que a câmera está filmando em tempo real e depois fazer suas observações, pedir para gravar novas tomadas ou conversar com os atores se quiser que mudem algo em suas performances. Nessa fase, ele precisa garantir que o material captado seja exatamente aquilo que irá precisar na sala de edição, para montar o filme.

Na etapa de pós-produção, trabalhando com o montador, com o editor de som, com os profissionais de mixagem e de correção de cor, o diretor do filme dá continuidade ao trabalho iniciado lá atrás, na pré-produção. Ou seja, ele garante que a estrutura narrativa imaginada e executada permaneça na montagem e finalização, enriquecendo as linguagens e conceitos já desenvolvidos junto aos outros profissionais.

Dependendo da produtora e do tipo de filme (no cinema independente, por exemplo, o diretor geralmente acaba tendo mais autonomia), alguns diretores participam também da definição de estratégias para o lançamento do filme – definindo quais as melhores salas de cinema para exibição ou o melhor festival para estreia. É ele também quem dá entrevistas, junto com os atores, na fase de divulgação.

Como é o dia a dia de um diretor?

Quando não está filmando, um diretor ou diretora de cinema passa boa parte do seu tempo observando a vida e as relações humanas. A parte bacana é que isso pode ser feito enquanto você se envolve em outras tarefas: andando na rua, cuidando dos filhos, na fila do banco…. Assim como o roteirista, cabe ao diretor usar a imaginação para enxergar, na vida, pequenos momentos cinematográficos.

Outro trabalho do diretor, que pode até parecer diversão, é assistir filmes – muitos filmes, se possível todos os dias. Isso educa o olhar e faz com que o profissional se torne cada vez mais analítico e detalhista, com um repertório imagético para oferecer soluções no seu próprio set de filmagem. Afinal, é preciso conhecer profundamente a linguagem cinematográfica já existente para quebrar parâmetros e criar novas linguagens.

Dependendo da etapa em que o filme se encontra, o dia a dia do diretor muda muito, por isso a única certeza dessa carreira é de que muitas incertezas irão surgir, constantemente. Mas, claro, você pode se preparar para algumas fases do processo, planejando o máximo possível com antecedência. Por isso a pré-produção é uma etapa tão importante, em qualquer filme.

Para a maioria dos diretores, a filmagem é o período que mais requer energia e também o mais empolgante, pois é quando tudo o que foi imaginado finalmente se torna concreto. O ritmo e as demandas do set costumam ser bastante intensos, principalmente para o diretor, pois em geral o tempo é curto e ele deve estar preparado para tomar decisões a todo momento. Nessa fase, é como se o diretor – junto com toda a equipe de filmagem – mergulhasse em outro universo e vivesse outra vida.

Já na pós-produção, o envolvimento do diretor depende muito de cada profissional. Alguns preferem orientar o montador e deixar que ele faça seu corte, outros acompanham mais de perto a edição. De todo modo, como é o diretor que responde, conceitualmente, pelo resultado final do trabalho, geralmente ele faz questão de estar envolvido em todos os momentos, “respirando” o filme até a exibição na sala de cinema.

Quanto tempo demora cada projeto?

Isso pode variar muito, dependendo da natureza do projeto – se for ficção, documentário, uma grande produção ou baixo orçamento… Mas pode-se dizer, generalizando, que o tempo médio de uma produção padrão de longa-metragem de ficção no Brasil fica em torno de três anos (incluindo roteiro, captação, pré-produção, filmagem, pós-produção e distribuição).

No caso de documentários, o cenário muda um pouco. Esse tipo de filme acontece no tempo que for preciso para contar a história, com extremas variações. Alguns são filmados em poucos meses, outros demoram décadas para serem concluídos.

Como, no Brasil, os cineastas dependem em larga escala de editais e leis de incentivo, o tempo dos projetos varia muito também de acordo com a aprovação e captação dos recursos. Outros fatores externos, como problemas de produção, podem afetar o cronograma do filme.

Há quem consiga, mesmo na ficção, fazer filmes de longa-metragem em um curto espaço de tempo, mas tudo depende da linguagem e da estética do filme. Cada projeto tem um perfil, mas como o diretor está presente em todas as fases do processo, é possível que, para não ficar parado, ele se envolva em mais do que um filme ao mesmo tempo.

Quanto ganha um diretor?

A maioria dos profissionais da área afirma que é muito difícil estipular uma média de salário para a carreira de diretor, embora seja absolutamente possível viver disso. A tabela do Sindcine estipula que o piso salarial para diretores em longa, média ou curta-metragem seja de aproximadamente 2500 reais por semana, porém esse valor pode chegar a até 7 mil reais por semana. Em publicidade, um diretor pode ganhar até 10% do orçamento total do filme, o que torna essa possibilidade bastante atrativa para quem quer ingressar no mercado.

Em se tratando de projetos autorais ou de “guerrilha”, pode acontecer de o diretor abrir mão de seu cachê para investir esses recursos em outros aspectos da produção do filme, como objetos de arte, equipamentos de fotografia ou efeitos especiais. Nesses casos, é comum também que o diretor seja produtor do filme e tem participação nos resultados (bilheteria ou prêmios em festivais, por exemplo). Se o filme for bem-sucedido comercialmente, o diretor pode acabar investindo esses lucros em seus futuros trabalhos.

Apesar da variação de projetos possíveis e seus desdobramentos mercadológicos, orçamentários e de cronograma, em geral o cachê do diretor é um dos mais altos do filme. Por conta disso, é possível se manter na carreira administrando o valor recebido por um projeto durante vários meses.

Embora seja uma profissão instável, que não pode ser muito pensada em termos burocráticos, o reconhecimento no caso de um bom trabalho é sempre muito maior do que para os demais profissionais, em especial os das áreas técnicas. Além disso, a formação em direção cinematográfica abre portas para diversas outras possibilidades. A televisão (principalmente seriados) pode ser uma excelente opção para os diretores iniciantes, não apenas pela estabilidade financeira, mas por utilizar uma linguagem que tem dialogado muito com a estética do cinema. Naturalmente, são propostas audiovisuais distintas, mas é possível encontrar muita sofisticação e criatividade narrativa em diversos conteúdos para TV e internet hoje em dia.

Como se tornar um diretor?

É um longo percurso. Os mais românticos diriam que basta “amar o cinema” e “ver filmes”. Na verdade, a forma mais tradicional é começar como assistente de direção e migrar para a direção. Há quem seja roteirista e diretor, ou quem passe da direção de fotografia para a direção – uma vez que, com a democratização da tecnologia digital, as áreas se tornam cada vez mais fluidas. Muitos diretores se especializam também em montagem, para terem maior domínio da decupagem.

Para quem estuda, o conselho é escrever um bom projeto de TCC, fazer uma boa defesa em caso de pitching e ter um bom curta de formação. Fazer videoclipes ou vídeos institucionais muitas vezes também pode ajudar a pensar em imagens e praticar seu ofício fora da universidade.

No Brasil, grande parte dos diretores de cinema começa a carreira fazendo filmes curtos, enviando-os para festivais, ganhando prêmios. Daí para um longa-metragem, são vários caminhos, mas facilita quando o diretor já tem um roteiro em mãos. A passagem de assistente de direção para diretor também costuma acontecer de maneira natural, através da prática.

Nesse sentido, os cursos de formação podem ser úteis porque neles você conhece pessoas e pode formar um grupo de trabalho. O cinema é uma arte coletiva, que envolve conhecimento técnico – duas coisas que uma escola pode oferecer.

Mas apenas estudar também não basta para formar um diretor, pois o ato de criar é o que traz cada vez mais conhecimento. Essa não é uma área acadêmica, mas prática, na qual é preciso arregaçar as mangas e fazer filmes, muitos filmes. Por isso, se você é um aspirante a diretor, tente buscar cursos que valorizem esse tipo de atividade e exercício, no qual possa realmente executar esse ofício em um set de filmagem.

Independentemente de qual formação você escolher, a recomendação dos diretores, para alguém que quer se tornar um diretor, é ter uma relação de amor pelo cinema. Ver e fazer a maior quantidade possível de filmes. Pensando de forma mais poética, podemos dizer que, no fim das contas, as respostas que você procura sempre vão estar nos próprios filmes.

Referências e conselhos

Para os futuros diretores de cinema, a filmografia e bibliografia são vastas. Podemos começar com os clássicos “Fellini 8 ½”, de Federico Fellini, e “Noite Americana”, de François Truffaut, ou o recente “Mia Madre”, de Nani Moretti, que abordam o universo de diretores de cinema e os desafios do set de filmagem.

Para aqueles diretores que também são roteiristas, “O Desprezo”, de Jean-Luc Godard, é uma boa pedida. Confira também “Rogopag – Relações Humanas”, uma série de quatro curtas-metragens, gravados por diferentes diretores de cinema. O curta de Pasolini, ‘La Ricotta’, conta a história de uma produção luxuosa sendo gravada em uma área pobre.

Outra sugestão é assistir os materiais extras de filmes, disponíveis em DVD ou BluRay, e muitas encontrados na internet. Sempre há um diretor contando algo que possa ajudar, falando sobre os processos, efeitos práticos, as dificuldades e soluções encontradas no set.

Você pode também assistir alguns documentários de making of. Por exemplo, o doc “Apocalipse de um Cineasta” aborda as filmagens de “Apocalypse Now”, de Francis Ford Coppola. “Meu melhor inimigo”, de Werner Herzog, fala sobre a relação dele com Klauss Kinski, seu ator preferido. “Lost in La Mancha” mostra a o set de um filme de Terry Gillian sobre Don Quixote, que nunca foi concluído.

Passando para as produções nacionais, em 1964 o cineasta Eduardo Coutinho estava gravando um filme no Nordeste do Brasil, mas foi obrigado a interromper as gravações por causa da ditadura militar. “Cabra Marcado Para Morrer” é o retorno do diretor, em 1981, a esse filme.

Quanto aos livros, alguns dos mais recomendados são “Hitchcock/Truffaut”, uma verdadeira Bíblia da direção cinematográfica, cujo conteúdo também está em um documentário de mesmo nome. “Esculpir o Tempo”, de Andrey Tarkovski, também pode ser lido e assistido. “A Espera do Tempo – Filmando com Kurosawa”, escrito por seu assistente de direção, Teruyo Nogami, é outro livro indispensável.

Para quem se interessa também por edição, “Num piscar de olhos”, de Walter Murch, traz questões sobre o ato de olhar e refletir dentro do processo de montagem – importantes, na verdade, para qualquer pessoa que queira se tornar editor.

Outras recomendações são o livro “Meu Último Suspiro”, de Luis Buñuel, uma biografia que se mistura com relatos fílmicos, e “A Mise En Scène no Cinema – Do Clássico ao Cinema de Fluxo”, de Luiz Carlos de Oliveira Jr.

Finalmente, quem quer ser diretor de documentário também tem algumas opções de livros interessantes, incluindo “Introdução ao Documentário”, de Bill Nichols, e “Eduardo Coutinho”, organizado por Milton Ohata, que fala sobre esse que foi um dos maiores documentaristas brasileiros.

Além de ler muito e ver muitos filmes, um bom diretor de cinema precisa olhar o mundo com o coração aberto, sem preconceito. Precisa de perseverança, disciplina, ousadia, imaginação, coragem e determinação. As histórias que você conta precisam ter ressonância emocional com o público, essa relação de fazê-lo sentir alguma coisa por meio da sua arte.

Observe pessoas, estude atores; não vá apenas ao cinema, mas também ao teatro. Estude sempre, busque referências, conheça a História do Cinema. Crie um repertório visual, fique por dentro das ferramentas tecnológicas que continuam surgindo. Se optar por um curso, busque parcerias, troque ideias e experiências. Se tiver a chance de participar de outros sets de filmagem, pratique o máximo possível antes de chegar ao seu. Tenha paciência, espere seu momento.

Fazer cinema é uma profissão difícil, que exige talento, mas sobretudo muito esforço. É uma busca constante, uma vontade de contar histórias que nunca acaba, nem mesmo quando um filme está terminado – pois essa é a hora de partir para outro. O único conselho é que você não desista no meio do caminho.

A carreira de um diretor de cinema pode parecer muitas coisas, mas uma delas é certa: trata-se de um trabalho apaixonante. Construir uma narrativa, com todas as ferramentas e possibilidades do audiovisual, é algo mágico. Por isso, se você acha que um dia ainda vai sentar numa cadeira de diretor, lembre-se de que até os melhores cineastas já se questionaram. É parte da profissão. “O que é um diretor de cinema? Alguém a quem as pessoas fazem perguntas sobre tudo. E, algumas vezes, ele tem as respostas” – François Truffaut.

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* Fontes consultadas para esse artigo, professores da Academia Internacional de Cinema: Lina Chamie, Vinicius Reis e Pedro Jorge “Cabrón”

**Foto: Alexandre Borges