Quero Ser Roteirista

*Por Katia Kreutz e equipe da Academia Internacional de Cinema

Um escritor solitário trancado em frente ao computador por dias, semanas, meses… Atormentado constantemente pelo bloqueio criativo, mas firme na tarefa de escrever o próximo sucesso hollywoodiano. Finalmente, ele digita o “Fade Out” e voilà: seu roteiro de cinema está pronto.

Se essa é a ideia que você tem da rotina de trabalho de um roteirista, talvez precise ler este texto até o fim. Se tem vontade de se tornar um profissional da área, ou simplesmente tem curiosidade sobre o assunto, siga por aqui também.

Neste artigo, vamos responder às principais dúvidas sobre a carreira de roteirista:

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O que faz um roteirista?

Afinal, o que exatamente envolve o trabalho de um roteirista? Ele conta a história do filme. Ou melhor, é o primeiro a começar a contar uma história que ganha vida durante a produção e só termina, de fato, na sala de edição.

“If it’s not on the page, it won’t be on the stage.” A frase em inglês, “se não está no papel, não vai para o palco”, basicamente quer dizer que a narrativa precisa partir de uma página em branco para chegar a algum lugar. É exatamente esse o trabalho do roteirista: botar as ideias na página. O problema é que, tanto para roteiristas experientes quanto para quem está começando, não há nada mais difícil do que colocar pra fora as primeiras palavras de uma história.

Há quem diga que, no fim das contas, o roteirista é a pessoa que mais trabalha num filme, pois está presente desde o argumento até a finalização, sendo o responsável por projetar o mundo que aos poucos vai sendo construído no set de filmagem.

Dificuldades e desafios

A maioria das pessoas, em especial no meio artístico, tem um sentimento de autoproteção contra críticas. É preciso entender, antes de mais nada, que o trabalho é um exercício constante. Como diz o velho clichê: a prática leva à perfeição. Quase nunca o primeiro tratamento de um roteiro de filme será a versão final que se verá na tela. Será necessário escrever e reescrever, revisar, repensar, colocar as coisas em perspectiva.

Os insights de outras pessoas, principalmente profissionais da área, cuja opinião você respeite, serão essenciais para elevar a qualidade do material produzido. Mas o maior crítico a ser vencido será sempre você mesmo. Perder o medo de escrever algo ruim e encarar o processo como um eterno aprendizado pode fazer com que aquela história incrível na sua cabeça, que sem esforço e muito suor nunca passaria de uma mera ideia, finalmente se transforme em um roteiro de cinema com cento e poucas páginas.

Quais as responsabilidades de um roteirista?

Muita gente se pergunta em que partes do processo de fazer um filme o roteirista está envolvido. É só escrever tudo até o tratamento final e acabou? A rigor, o trabalho termina ao entregar o roteiro para o contratante. No entanto, tudo depende da natureza da produção e da relação que se estabelece com o diretor do projeto.

No caso do cinema, em filmes de ficção, geralmente o trabalho do roteirista se limita à fase de pré-produção. Já para os documentários, é comum ter um roteiro de captação e outro, posterior, de edição. Isso porque o filme vai se moldando conforme a realidade daquilo que é captado, muitas vezes saindo do planejado e se desviando um pouco do que está no papel. Quando se trata de seriados, em geral a criação é coletiva no sistema de writer’s room (sala de roteiristas).

Como as possibilidades de trabalho de um roteirista, nos dias de hoje, podem ir do cinema para a TV, passando ainda pela internet, sua atuação também pode variar muito conforme o projeto. Mas a função do profissional, normalmente, é desenvolver a história, criando soluções narrativas para ela. Se isso quer dizer que ele irá ajudar o diretor até que o filme seja montado, vai depender do acordo feito inicialmente e das demandas de cada trabalho.

Como é o dia a dia de um roteirista?

Assim como sua participação nos diversos processos da produção de um filme é variável, a rotina de um roteirista também varia muito de acordo com cada indivíduo e seu modo de trabalho, ou cada projeto e a estratégia escolhida para desenvolvê-lo.

Para muitas pessoas que trabalham com roteiro, cujas atividades profissionais não se restringem à escrita, o ideal é reservar períodos nos quais será possível se dedicar sem distrações – o que pode ser um pouco difícil no mundo conectado em que vivemos, recebendo informações e estímulos o tempo inteiro. Por isso, alguns roteiristas recomendam ficar off-line por algumas horas, tentar manter o foco e a concentração na história.

Contudo, todos concordam que é essencial para ter uma carreira como roteirista e não apenas um hobbie é reservar algum tempo diariamente, planejando-se para garantir a execução do trabalho. Mesmo que ao final do período estabelecido você tenha escrito apenas um parágrafo, é importante manter a disciplina.

Alguns projetos exigem mais pesquisa do que outros, algumas histórias são escritas mais rápido do que outras. Não existe uma fórmula para o roteiro de um filme, apenas a certeza de que o esforço e a dedicação constantes farão com que algo vá para o papel. A partir disso, é preciso trabalhar e lapidar até que o resultado seja satisfatório.

Sim, é uma atividade solitária – a não ser que você considere seus personagens boas companhias. Envolve pesquisa, escrita, mas também demanda assistir filmes e séries feitos por outras pessoas. Por isso, pode soar também como a rotina de um desocupado, um trabalho que não parece bem trabalho. No entanto, mesmo que ele esteja apenas olhando para uma parede ou uma tela em branco, a mente do roteirista funciona ininterruptamente.

Do tempo para concluir uma história, de todo o trabalho para estar com um roteiro cinematográfico em mãos, o que leva menos tempo é justamente escrever o roteiro propriamente dito, da primeira cena em diante. Gasta-se mais tempo pensando sobre a narrativa e os personagens, pesquisando e refletindo para poder criar. Isso vale tanto para roteiros originais quanto os adaptados de outros materiais. Tudo exige muita reflexão. Ou seja, perder tempo na pesquisa é ganhar tempo na redação.

Quanto tempo demora para escrever um roteiro?

Considerando todos esses processos, quanto tempo exatamente se leva para escrever o roteiro de um filme? Novamente, não existe um número certo, mas pode-se dizer que seis meses é um tempo saudável para o ciclo completo de um roteiro de longa-metragem. Isso inclui brainstorming com colaboradores e pesquisadores, estruturação, primeiro tratamento (versão) e possíveis reescritas.

Um roteiro pode levar anos para ficar pronto, como também pode surgir em dias. Depende do tamanho, do desafio, da pesquisa, da ideia. Principalmente no caso de longas-metragens para cinema, é um trabalho cansativo, que exige disciplina, estudo, leitura e muitas horas no computador diariamente.

Escrita é hábito e planejamento. Quanto melhor o roteirista se planeja, quanto mais detalhada for sua escaleta (uma espécie de rascunho com as locações e descrições das cenas), mais rapidamente ele dará conta das 100 ou 120 páginas de um roteiro cinematográfico. A única certeza que o profissional tem ao fechar o primeiro tratamento é que irá escrever um segundo, um terceiro e quantos mais forem necessários até o filme ficar pronto, de fato.

O trabalho do roteirista acontece quando ele está tomando cerveja com os amigos, no jantar de família, andando na rua ou no metrô lotado. Pode parecer exaustivo, mas trabalhar com o que se tem paixão é um privilégio para poucos. Por isso, quem quer viver da escrita está sempre pensando, observando. Se essa ânsia sem explicação por escrever pegou você, qualquer momento pode virar uma cena, uma ideia, um diálogo.

Qualquer pessoa que tenta dar sentido às experiências da vida por meio de uma narrativa já é um pouco roteirista. Colocar no papel o que está na sua imaginação, visualizando as cenas, é apenas um passo além. Para os iniciantes nessa arte, mesmo quando falta técnica, provavelmente sobra intuição.

Quanto ganha um roteirista?

Mas e aí, dá pra pagar as contas? Uma das maiores dúvidas, e certamente o maior medo de quem deseja abraçar a profissão de roteirista, é saber se não vai faltar dinheiro no final do mês. Afinal, qual o salário de um roteirista?

Muita gente fala em “largar tudo e fazer cinema”, sem perceber que a indústria cinematográfica é isso mesmo: um negócio, um mercado estruturado, e isso vale também para a carreira de um roteirista.

A crise econômica e os altos índices de desemprego no país acabam de mostrar que não existe, de fato, uma forma de garantir a segurança financeira no mundo em que vivemos. Profissões autônomas e trabalhadores freelancers estão cada vez mais em ascensão. Para esses profissionais, o que garante a estabilidade é simplesmente uma boa administração de suas economias.

Então, quanto ganha um roteirista, em média? Tudo é muito relativo, mas podemos tomar como parâmetros duas tabelas para longa-metragem. O piso de salário para um roteirista, recomendado pela Associação Brasileira de Autores Roteiristas (ABRA), é de 72 mil reais para dois tratamentos e uma revisão. Já o Prodav 05 do Fundo Setorial do Audiovisual, um edital de desenvolvimento bastante disputado no país, paga 100 mil reais para um projeto e, desse valor, pelo menos 40% tem que ir para o roteirista. Profissionais experientes no mercado acreditam que a média de valor para um argumento seja de 10 mil reais, ficando entre 40 e 70 para o roteiro de um longa. Lembrando que essa quantia não é mensal, mas por projeto, ou seja, ela será diluída no decorrer dos meses em que o roteiro do filme estiver sendo escrito.

Na teoria, a experiência e os resultados artísticos e comerciais deveriam ser critérios claramente quantificados pelo mercado audiovisual no item “roteiro” de um orçamento. Porém, a prática mostra que, exceto nos casos em que o roteirista é sócio do projeto, o valor não chega perto dos 5% do orçamento de um filme. As tabelas de referência servem para orientar os orçamentos e contratos de roteiristas no mercado audiovisual brasileiro, mas o valor normalmente oscila de acordo com o tipo de roteiro e sua duração.

Tão importante quanto o salário acordado é definir a participação do profissional nos créditos e fazer constar em contrato ou firmar um termo de compromisso. Igualmente importante é fazer um bom planejamento financeiro, de modo que a carreira se torne viável e não seja preciso sacrificar nada para trabalhar como roteirista na indústria dos seus sonhos.

Como se tornar um roteirista?

A pergunta que não quer calar: Com tudo isso em mente, como eu faço para ingressar na carreira de roteirista? Cada pessoa terá um caminho diferente, mas estudar cinema em uma instituição de qualidade, com profissionais que estejam atuando no mercado, é uma excelente forma de fazer contatos. Claro que há roteiristas que começam em outras áreas, sem passar por uma escola de cinema, mas a vantagem de um curso é juntar numa mesma sala pessoas com esse objetivo em comum. Além disso, os curtas-metragens estudantis costumam ser exibidos em festivais, que são bons ambientes para mostrar seu trabalho e conhecer outros profissionais.

Depois de estudar, o melhor caminho é procurar estágios ou assistências. Sim, é preciso começar de baixo. Ninguém vai sair da escola de cinema e virar um roteirista de blockbusters em Hollywood. Isso quer dizer que, muito possivelmente, seus primeiros projetos vão ser pequenos ou diferentes daquilo que você gostaria de estar escrevendo, mas aos poucos cria-se networking e ganha-se experiência.

Partir para um longa-metragem logo de cara é dureza, por isso a maioria dos roteiristas recomenda começar com curtas, para desenvolver sua sensibilidade narrativa. Será preciso praticar sempre, com paciência e dedicação, se possível deixando de lado a ansiedade.

A vantagem do roteirista é que uma boa ideia pode levá-lo muito longe. A indústria precisa de histórias originais e do frescor de quem está começando. Muitas pessoas que se formam em Cinema iniciam a carreira de roteirista onde aparece trabalho, mas estar no lugar certo na hora certa (com um roteiro de filme, preferencialmente longa-metragem, prontinho na mão) pode ser o detalhe que vai garantir seu ingresso no mercado.

Ser versátil e estar disposto a escrever para outros tipos de formatos além de roteiros cinematográficos também pode ser um ótimo diferencial. Existe trabalho para redatores no entretenimento, no jornalismo, na dramaturgia, na publicidade. Manter trabalhos paralelos como freelancer, principalmente para jovens profissionais, é uma forma de expandir as oportunidades e – novamente – fazer bons contatos.

Referências e conselhos

Quem chegou até aqui e quer saber ainda mais sobre a profissão, sobre como é trabalhar como roteirista, para visualizar as conquistas e também as dificuldades desse ofício, pode buscar inspiração em filmes como “Adaptação/Adaptation”, de Charlie Kaufman. Nele, um roteirista desesperado passa por um bloqueio criativo durante o processo de adaptar um livro sobre orquídeas. Ele acaba buscando ajuda em seu irmão gêmeo e também em Robert McKee, famoso script doctor (consultor) de Hollywood.

Muitos outros filmes brincam com o “fazer cinema”. Em “Barton Fink”, dos irmãos Coen, um renomado autor de peças de teatro é convencido a escrever roteiros de filmes para o cinema, mas descobre a dura realidade de trabalhar para a indústria cinematográfica hollywoodiana. Na comédia “Deu a Louca nos Astros/State and Main”, de David Mamet, um roteirista precisa reescrever um filme chamado “O Velho Moinho”, que vai ser filmado numa cidade onde não existe mais o velho moinho.

Já o filme biográfico “Trumbo” conta a história de Dalton Trumbo, um roteirista que enfrentou a repressão e foi perseguido durante o Macarthismo nos Estados Unidos. Apesar de ser boicotado na indústria, ele usou a criatividade para que seus roteiros fossem produzidos e foi, anonimamente, o autor do clássico “A Princesa e o Plebeu/Roman Holiday”.

Além de assistir muitos filmes, quem se interessa pela área pode seguir os sábios conselhos de roteiristas profissionais. A primeira recomendação é continuar estudando. Todas as profissões exigem eterno aprendizado e essa não é diferente.

Ler é fundamental. Se uma pessoa sonha em trabalhar como roteirista e não tem o hábito da leitura, será muito difícil para ela desenvolver suas próprias histórias de maneira consistente. Quanto mais você lê, melhor escreve. Assistir a filmes e séries jamais vai substituir isso. Oficinas de escrita criativa, fóruns de roteiro, encontros e congressos sobre o tema também são boas pedidas para quem pensa em se aprimorar ou mesmo renovar suas ideias.

Outra experiência enriquecedora para quem realmente quer uma bem sucedida carreira como roteirista é acompanhar a edição/montagem de diversos tipos de projetos. Questões como tempo de ação, timing de uma fala cômica, problemas no diálogo, imagens de cobertura, entre outros elementos da linguagem audiovisual, saem do abstrato e se tornam mais concretos na sala de edição.

Ser um bom observador e se interessar pelo ser humano, por suas peculiaridades e contradições, é uma forma de estimular a mente para criar personagens tridimensionais. Ouvir as outras pessoas conversando é uma prática essencial para escrever de maneira verossímil. O resto é pesquisa, disciplina e muito trabalho. A principal reclamação dos professores de roteiro é que os alunos tendem a ficar apenas na teoria e não gostam de colocar a mão na massa. Por isso, abandonar a preguiça e o imediatismo é sempre o primeiro passo.

A criação é algo muito pessoal. Submeter uma história ao olhar do outro nem sempre é uma tarefa fácil ou confortável. Tenha consciência de que roteirizar pode até ser um exercício solitário, mas filmar é uma atividade coletiva. Isso quer dizer que você precisa saber expor e defender suas ideias, se quiser que elas saiam do papel. Assim, depois de tanto estudo e reflexão, esforço e dedicação, e também algum desapego, o “Fade Out” no final do roteiro de seu filme certamente será merecido.

 

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* Fontes consultadas para esse artigo, professores da Academia Internacional de Cinema: Paulo Marcelo do Vale Tavares, Pedro Salomão, Patricia Oriolo, Renata Mizrahi e Thais Fujinaga.

* Foto: Lucas Peev