Quero Ser Ator de Cinema

*Por Katia Kreutz e equipe da Academia Internacional de Cinema

Atuar é uma coisa mágica. Para quem vê de fora, basta mudar a caracterização e a atitude, que o ator se torna uma nova pessoa, não é mesmo? Ele pode ser qualquer pessoa. No fundo, temos a impressão de que esse profissional é o mais envolvido na tarefa de contar uma história. Afinal, dentre toda a equipe de filmagem, os atores são os únicos que de fato aparecem na tela de cinema, quando o filme está pronto, e por isso os atores são também os que mais precisam conviver com a fama. Mas, certamente, esse não pode ser o principal objetivo de quem busca essa profissão. Trata-se de um trabalho criativo e artístico, mas também muito difícil, que explora profundamente as complexidades da natureza humana.

Robert DeNiro certa vez resumiu um dos aspectos mais interessantes da interpretação: “Atuar permite viver a vida de outras pessoas sem ter que pagar o preço”. Para isso, no entanto, é preciso que o ator confie no diretor e se exponha, absorvendo a personalidade do personagem, ao mesmo tempo em que o enriquece com suas próprias vivências e experiências.

Neste artigo, vamos responder às principais dúvidas sobre a carreira de um Ator:

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O que faz um ator?

No cinema, o trabalho do ator é como a ponta de um iceberg: de toda a movimentação gigantesca que existe por trás de uma produção cinematográfica, ele é o elemento humano que será visto no final. É o ator quem imprime vida à história, a pessoa com quem o público se identifica.

A função do ator é se entregar, buscar uma conexão com o espectador, usando seu talento para ajudar a tirar a história do papel e dando sua contribuição para torná-la mais interessante. Não apenas falando as palavras e executando as ações que estão escritas no roteiro, mas seguindo as orientações do diretor para obter a melhor performance possível, acrescentando também suas ideias ao personagem.

Dentro do set, preservar e respeitar os atores é essencial para que eles alcancem a concentração necessária a essa entrega. Em geral, a cena não acontece sem o ator, por isso é preciso que seja criada a atmosfera certa para esse profissional, que é a ponte entre o público e a história.

Nesse contexto, o trabalho do ator também envolve manter a calma e a naturalidade em meio à correria do set, pois a responsabilidade que ele carrega é enorme. É como se ele fosse um jogador de futebol, com a bola no pé para fazer o gol, depois que todo o resto do time já fez sua parte para que essa única pessoa chegasse até ali.

Por conta disso, o ator precisa estar extremamente preparado muito antes de chegar a hora da gravação. Não apenas decorando plenamente seu texto, mas conversando de maneira profunda com o diretor e buscando referências para tornar seu personagem o mais real e verossímil possível.

Para interpretar uma outra pessoa, provavelmente alguém muito diferente dele mesmo, o ator precisa buscar em seu próprio passado memórias emotivas e sensoriais que o ajudem a caracterizar determinadas situações, experiências que provoquem alguma intimidade entre ele e o personagem que irá viver. É preciso entender profundamente o outro.

Com tudo isso em mente e tendo de certa forma “absorvido” as características de um determinado personagem, depois de muito ensaio e preparação, o ator deve chegar ao set simplesmente com os olhos e ouvidos abertos, conectado com o momento presente. Ali, seu trabalho é nada menos do que ser essa outra pessoa, viver essa outra vida, da maneira mais autêntica possível.

 

Dificuldades e desafios

“Uma grande questão a perguntar quando se está atuando é: para onde você iria se a cena não tivesse interrompido as ações do personagem?” Esse conselho, dado por Jack Nicholson, é válido para qualquer um que queira se aventurar nessa profissão. Quando a palavra “corta!” interrompe o movimento do ator, ele de certa forma sai daquele universo no qual estava inserido. Então, se o ator puder ver a ação como algo contínuo, que faz parte de um contexto maior, sua interpretação se torna menos fragmentada e mais consistente. Aí estão os três Oscars de Nicholson para comprovar essa teoria.

Mas a perda de concentração e foco não é o único problema que um ator pode enfrentar no set de filmagem. O cansaço físico pode ser outro grande inimigo de uma boa atuação. Como normalmente a quantidade de cenas a serem gravadas é muito grande, e em todas elas o ator precisa estar sempre com a mesma energia, é importante que ele seja poupado ao máximo – fisicamente e também emocionalmente – durante a gravação.

Nessa corrida contra o tempo, muitas vezes com o orçamento apertado, naturalmente toda a equipe cinematográfica sofre pressão. O problema de o ator estar tenso é que isso pode arruinar a cena. Portanto, é essencial cuidar bem desse profissional, tentando evitar esse estado de sofrimento e estresse que os outros eventualmente acabam enfrentando. Afinal, o esforço emocional de mergulhar na pele de outra pessoa já é desgastante o suficiente, não é mesmo?

Contudo, mesmo nos sets em que os atores são poupados, nos quais eles encontram uma atmosfera relativamente tranquila para realizar seu trabalho, a filmagem é um período bastante intenso – para o qual os aspirantes a atores precisam estar preparados. Muitas vezes as folgas são raras, outras tantas o ator precisa se deslocar da cidade onde mora para onde está gravando e ficar ausente de sua vida pessoal. Ele precisa estar pronto para passar muito tempo fora de casa, de sua rotina, longe da família, literalmente abduzido de sua própria vida e imerso na realidade de outra pessoa – pelo menos por alguns meses – e precisa fazer tudo isso com naturalidade. Até para os mais experientes, esse é um dos grandes desafios da carreira de ator no cinema.

 

Quais as responsabilidades de um ator?

Basicamente, a maior responsabilidade do ator é executar, da melhor forma possível, o que foi ensaiado. No entanto, ele pode também fazer parte da construção do roteiro, nos casos em que a criação envolve improvisos, em especial nos diálogos.

Um diretor que aproveita bem seus atores na pré-produção pode, inclusive, utilizar os ensaios para polir o texto. Os atores são os primeiros espectadores e também os primeiros críticos de um filme, pois podem dar sua opinião e dizer o que funciona antes mesmo de ele ser gravado. Atores inteligentes questionam e contribuem, mas é papel do diretor saber escutar. No fim das contas, todos os profissionais da equipe têm o objetivo de contar uma história de forma coletiva, mas acrescentando suas próprias ideias durante o processo.

A maior qualidade de um bom ator é saber fazer boas escolhas, mantendo-se atento, maleável e aberto para entender o que cada personagem pede. Saber observar o comportamento das pessoas e ouvir os outros ajuda, e muito, pois a matéria de trabalho desse profissional é justamente o ser humano. Estar disposto a aprender e desenvolver novas habilidades, que porventura possam ser necessárias ao personagem, também é algo indispensável.

 

Como é o dia a dia de um ator?

A rotina de trabalho, que não tem nada de rotineira, depende muito do filme. Normalmente, o ator ensaia durante a pré-produção, com os outros atores e um preparador de elenco, ou com o próprio diretor. Depois, é hora de gravar.

Dentro da produção de um filme, se o ator é um dos protagonistas, a dedicação envolve não apenas uma pesquisa aprofundada do universo do personagem e habilidades específicas, busca por referências, caracterização e muitos ensaios, mas também uma enorme quantidade de diárias.

Na pós-produção, em geral os atores não estão muito envolvidos no processo, a não ser que seja necessário regravar ou mesmo dublar o som de alguma cena.

 

Quanto tempo demora cada projeto?

Em um filme de longa-metragem, no qual o profissional seja um dos atores principais, o tempo de duração é de no mínimo um mês. Em caso de produções maiores, o período entre ensaio e filmagem pode chegar a até três meses. Isso vale para filmes produzidos no Brasil, já que em blockbusters hollywoodianos muitas vezes o trabalho é bem mais intenso.

Em seriados e outros tipos de narrativas televisivas, tudo depende de quantos episódios serão gravados e da participação do ator na história. Já no caso de curtas-metragens, esse tipo de filme geralmente é gravado em poucos dias, mas pode haver um período maior de ensaio (uma ou duas semanas). Cada projeto é diferente e o cronograma varia de acordo com o tamanho da produção e a relevância do ator para a narrativa, quantas cenas ele tem e se elas são difíceis de filmar ou não.

 

Quanto ganha um ator?

Essa é a questão mais complicada de se responder. Muitos atores costumam comparar sua profissão à de um jogador de futebol: quanto se ganha tem a ver com o talento e a fama do profissional. Certamente, quem é mais famoso sempre consegue negociar melhores cachês. E esses cachês, na carreira de ator, são muito variáveis, podem ir de 700 reais a 700 mil.

A tabela do SATED (Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos e Diversões) estipula o valor de 1000 reais para a diária de um ator no cinema. Em geral, a quantia paga por dia para o elenco de apoio fica em torno de 800 reais. Em filmes de baixo orçamento, a média de salário, para o elenco principal, é de 10 mil reais para o projeto inteiro. Em curtas, pode variar de 2 a 5 mil por projeto, dependendo da participação do ator na história. Novamente, tudo varia de acordo com o papel, o reconhecimento do profissional, o orçamento e o tempo de duração de cada filme.

Mas e aí, dá pra viver como ator? Vários fatores precisam ser levados em consideração, que incluem não apenas esforço e talento. A perspectiva realista é de que os atores menos conhecidos acabam tendo que realizar outros trabalhos paralelos – muitos partem para produção cultural, teatro, publicidade, tornam-se apresentadores ou locutores. Hoje em dia, há uma série de mídias diferentes, com as mais variadas oportunidades. Mas é preciso correr atrás.

Como o cinema brasileiro ainda é um mercado em formação, já que não temos uma indústria cinematográfica como a norte-americana, às vezes é preciso buscar outras fontes de renda, fazer testes para novelas, seriados, publicidade, ou atuar no teatro. No entanto, com um pouco de perseverança é possível estabelecer uma carreira e formar parcerias com diretores. Sempre buscando se aperfeiçoar o máximo possível, claro, já que o sucesso também tem muito a ver com a dedicação.

 

Como se tornar um ator?

Muitas pessoas já começam a descobrir na infância a paixão pelas artes cênicas. Nesse ponto, aqueles que se envolvem desde cedo em atividades como teatro, dança e coral, acabam tendo uma pequena vantagem sobre quem se descobre mais tarde.

Independentemente de como você chegou à conclusão de que ser ator de cinema é o que deseja para sua vida, estudar é sempre um primeiro passo. A escola é um lugar para aprender técnicas, praticar sua arte e entender qual o melhor caminho a seguir dentro da profissão. É fazendo um curso que se tem contato com outros atores, professores e, principalmente, com diretores de cinema, por isso também é importante escolher boas escolas, que tenham profissionais atuantes no mercado. Participar em curtas-metragens de estudantes, ou filmes de baixo orçamento, é outra forma de ganhar experiência e aumentar seu portfólio.

Há quem decida fazer alguma faculdade mais “segura”, para ter outra formação caso a carreira de ator acabe não dando certo. Na área audiovisual, são inúmeras as possibilidades, desde optar por produção até roteiro. Esses cursos podem servir como um complemento para o ator se tornar ainda mais versátil, além de conhecer melhor o processo de fazer um filme. Atualmente, também são inúmeros os atores que fazem a transição para a cadeira de diretor (alguns exemplos incluem Jodie Foster, Mel Gibson, Angelina Jolie e George Clooney, e no Brasil Selton Melo, Carla Camurati, Denis Carvalho, Marcos Paulo, entre outros).

 

Referências e conselhos

Para quem busca referências, uma boa opção é “Cidade dos Sonhos/Mulholland Dr.”, de David Lynch. No filme, uma jovem tenta a vida como atriz em Hollywood e acaba se envolvendo com uma mulher que sofre de amnésia. Também de Lynch, “Império dos Sonhos/Inland Empire” é a história de uma atriz que começa a adotar as características de sua personagem em um filme, o que torna sua vida um pesadelo surreal.

“Um Lugar Qualquer/Somewhere”, de Sofia Coppola, fala sobre um desanimado ator hollywoodiano que analisa sua trajetória de vida durante uma estadia no famoso Chateau Marmont. “Encontros e Desencontros/Lost in Translation”, da mesma diretora, também tem como personagem um ator decadente, que acaba estabelecendo uma amizade inusitada com uma jovem em Tóquio.

A mesma premissa de um ator em decadência assola o personagem principal de “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)/Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance)”, de Alejandro González Iñárritu. Ao que parece, o conflito do ator entre sua arte e a popularidade, assim como as questões que surgem quando ele se pergunta o que fazer com seu talento, sempre podem dar uma boa história.

Atores interpretando atores, explorando esse universo tão fascinante de “ser outra pessoa”, é o que não falta no cinema. Em “Acima das Nuvens/Clouds of Sils Maria”, de Olivier Assayas, uma estrela de cinema acaba se deparando com uma desconfortável reflexão sobre si mesma ao participar de uma remontagem da peça de teatro que lançou sua carreira.

Já o clássico “Tootsie”, de Sydney Pollack, é um filme que fala um pouco sobre a realidade dos atores nos Estados Unidos, brincando com a questão de até onde você precisa ir para conseguir realizar sua arte. O filme mostra que muitas vezes se paga um preço alto para continuar na profissão, mas que é preciso persistir, não desistir, se esse é seu sonho.

Na contramão disso, a atriz brasileira Fernanda Montenegro certa vez aconselhou os jovens atores a desistirem, sim. E, depois, se não conseguissem viver sem atuar, que voltassem. A persistência, de fato, é uma das maiores características dessa profissão.

Grandes atores já brincaram com as definições e recomendações, dizendo que a carreira no cinema basicamente envolve decorar suas falas e tentar não tropeçar nos objetos de cena. Mas exige também, acima de tudo, colocar-se em uma posição vulnerável, ter curiosidade e interesse sobre as outras pessoas, querer entender como é ser o outro.

Nas palavras de Meryl Streep: “A verdade é que todos já fomos crianças de três anos, atuando no meio da sala, com todo mundo ao redor achando que éramos adoráveis. Somente alguns de nós crescem e acabam sendo pagos por isso”. Quem sabe pode ser você?

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* Fontes consultadas para esse artigo, professores da Academia Internacional de Cinema: Vanessa Prieto e Isadora Ferrite
**Foto Yuri Pinheiro