Quero Fazer Documentários

*Por Katia Kreutz e equipe da Academia Internacional de Cinema

Você gosta de documentário, ou pelo menos sabe o que caracteriza esse tipo de filme? Uma visão sobre a atualidade, um tratamento criativo da realidade? Ambas as coisas? É o que vamos descobrir neste artigo – em sua essência, também um pouquinho documental.

O documentário é uma prática cinematográfica que está constantemente evoluindo e não tem fronteiras muito claras. Acredita-se que o termo documentary tenha sido cunhado pelo cineasta escocês John Grierson. Segundo ele, o princípio do documentário estava no potencial do cinema para a observação da vida, que poderia ser explorado em uma nova forma de arte. Ele defendia que o ator “original” e a cena “original” seriam melhores para interpretar o mundo moderno do que os elementos que a ficção oferecia. Ou seja, que os conteúdos tirados do “material cru” seriam sempre mais reais do que os encenados.

Já o cineasta soviético Dziga Vertov definiu o documentário como uma apresentação da vida como ela é, capturada sem aviso; ou seja, a vida provocada e surpreendida pela câmera. Outras definições são um pouco menos poéticas, vendo o documentário simplesmente como um filme factual que também é dramático.

Para muitos estudiosos, o documentário se diferencia das outras formas de não-ficção porque oferece uma opinião, uma mensagem específica, junto com os fatos que apresenta. O que todos concordam é que a prática do cinema documental é um processo complexo, que envolve escolhas e problemas criativos, éticos e conceituais. Esse tipo de filme pode ser usado como uma forma de jornalismo, sim, mas também para defender uma causa ou expressar um ponto de vista pessoal do cineasta.

O documentarista norte-americano Michael Moore costuma dizer que não quer que ninguém saia do cinema deprimido depois de assistir seus filmes (que, frequentemente, tratam de denúncias e assuntos preocupantes para a sociedade). “Eu quero que as pessoas fiquem com raiva. Depressão é uma emoção passiva, raiva é ativa. Esse sentimento talvez queira dizer que 5% ou 10% daquele público vai levantar e dizer: Preciso fazer alguma coisa.”

Neste artigo, vamos responder às principais dúvidas sobre a carreira nesta área:

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O que faz um documentarista?

O documentarista observa, dialoga e inventa. Ele observa o mundo ou uma situação, se apaixona por um determinado sujeito ou objeto, estabelece estratégias de aproximação e finalmente processa aquele assunto por meio da criação cinematográfica. Em sua produção de conteúdo, o cineasta documental formula seu olhar sobre aquele tema, tendo o discurso audiovisual como ferramenta.

Ao contrário do que muitas pessoas pensam, o documentário não é um registro fiel da realidade. Trata-se de uma construção de linguagem que parte da reflexão do cineasta. O mesmo tema poderia ser passado para diversos documentaristas diferentes e isso geraria filmes completamente diversos, pois a perspectiva de cada um é única.

Um dos aspectos mais interessantes do documentário é a autonomia do criador. O documentarista geralmente faz um pouco de tudo no set. Além disso, é muito raro um documentário em que a ideia inicial não parte do próprio cineasta. Trata-se de um profissional que se apaixona por um assunto e, dominando grande parte do processo da produção cinematográfica, transforma aquilo em um filme, uma construção narrativa que mostre seu ponto de vista sobre o tema.

Qual a diferença entre ficção e documentário?

Para a maioria dos documentaristas, essa distinção é bastante nebulosa. Na verdade, o cinema nasceu como documentário; afinal, os primeiros filmes dos irmãos Lumière, pioneiros do fazer cinematográfico, lá no final do século XIX, retratavam cenas do cotidiano dos franceses da época.

Uma das maiores diferenças entre os dois estilos de filmes é de que o cinema de ficção tem suas responsabilidades éticas, naturalmente, mas no documentário essa responsabilidade aumenta. Por quê? Para um ator, o filme em que ele está trabalhando é apenas isso: um trabalho. Já para o sujeito de um documentário, a filmagem vai acabar, mas a vida continua. Esse “personagem” tem uma experiência existencial com o filme.

Outra diferença é que no documentário você lida com a realidade de uma forma mais intensa, o que inclui as surpresas e decepções que fazem parte do mundo real. O que a realidade apresenta ao documentarista pode fazer parte do filme e enriquecê-lo, mas também podem causar problemas de logística e planejamento.  Na ficção, existe uma possibilidade muito maior de se planejar o que acontece no set, embora também exista espaço para improviso. Só que o controle é muito maior.

Enquanto que na ficção boa parte do que se vê no filme já está previamente estabelecido no roteiro, partindo de alguma coisa que já existe no papel, o documentário é muito mais orgânico. Ele se constrói enquanto está sendo feito: a filmagem busca o imprevisto. Nesse contexto, a pesquisa e a montagem são processos longos e importantíssimos para essa construção.

Recentemente, a cultura do documentário se expandiu e a própria ficção tem usado elementos documentais, misturando linguagens. Para muitos cineastas, a diferença entre os gêneros não importa muito, pois trabalhar conscientemente na fronteira entre as várias formas de explorar a realidade pode enriquecer qualquer tipo de arte.

A única distinção que precisa ser feita, para o artista, é de que o filme seja fiel e potente quanto à sua pretensão artística, que tenha coerência interna de linguagem. O impacto que ele vai gerar no público, no final das contas, vai depender de inúmeras variáveis que estão fora do controle do cineasta.

Dificuldades e desafios

É muito forte a ideia, principalmente para o público brasileiro, de que o documentário é algo pedagógico, didático e, por consequência, chato. Ele pode ensinar algo, claro, mas em geral não é pela via mais simplista ou óbvia. A lição deve vir embutida em uma criação artística, um olhar intenso sobre o mundo, um ponto de vista interessante do documentarista. É preciso recortar a realidade, criando dispositivos que potencializem o que o artista quer falar, entender, mostrar. É sempre um diálogo.

Um consenso entre os documentaristas é de que sempre se sai de um filme sabendo mais sobre o mundo, entendendo melhor a realidade. Entretanto, como essa realidade nem sempre é muito bonita ou agradável, um dos maiores desafios está na maneira como o cineasta – e também os personagens retratados por ele – irão se comportar no meio do “furacão”. O filme nunca é uma linha reta, previsível.

Lidar com a mudança, com situações inusitadas ou inesperadas, pode ser uma enorme dificuldade para muitas pessoas. Para o documentarista, é o que faz a diferença em seu trabalho. Existe um primeiro filme, que está em sua cabeça. Ele pesquisa e descobre que aquilo não é bem assim, o que já transforma a ideia em um segundo filme. Depois de tudo filmado, acaba aparecendo na edição um terceiro filme, totalmente diferente do que o imaginado no início. Deu pra perceber como é dinâmico e interessante esse processo?

Essas transformações radicais, do desejo inicial até a versão final do filme tornam o processo mais desafiador, mas também um pouco incerto. Lidar com o descontrole, o acaso, o imprevisto, é uma das principais qualidades que um cineasta documental precisa ter. São essas dificuldades e novidades que exigem mais atenção, pois elas acabarão conduzindo a narrativa.

Além da responsabilidade com a realidade e das questões éticas que muitas vezes o cinema de ficção não enfrenta, outra grande dificuldade para quem está nessa área é o próprio mercado. É uma carreira que envolve constantes oscilações e o sucesso com o público nas bilheterias muitas vezes demora a chegar, ou nem chega. Claro que cada caso é um caso, mas o profissional de documentário precisa estar preparado para trabalhar por paixão, não por reconhecimento.

Ele também precisa estar disposto a ser tolerante no trabalho em grupo, fazer concessões, ceder, mudar os planos, dividir funções, deixar totalmente o ego de lado, compartilhar e absorver ideias. A ética que se mostrará no trabalho final, que vai para o mundo, é a mesma que começa dentro da equipe.

Quais as responsabilidades de um diretor de documentário? Como é o dia a dia de um documentarista?

Isso depende do momento da produção. Na fase de pesquisa, em geral o cineasta se reúne com a equipe de pesquisadores e define as horas e o método de trabalho. Já no momento de gravar, é como se ele saísse do seu mundo, pois se dedica 24h por dia ao projeto – mais ainda se a gravação for em outra cidade ou país. Na edição, o tempo e o envolvimento do diretor (caso ele mesmo não seja o editor do projeto) também variam de acordo com o material captado.

O que o documentarista precisa estar preparado para fazer é estar sempre presente, em todas as fases da produção, e disposto a fazer o que for preciso. Geralmente, ele é quem tem a ideia e participa dela desde a entrevista da primeira fonte até a inserção do último crédito. Com as novas tecnologias e equipamentos disponíveis hoje em dia, é cada vez mais comum o cineasta colocar “a mão na massa” e às vezes até fazer tudo sozinho, explorando novas possibilidades narrativas e realizando projetos extremamente autorais.

Essa ideia de um profissional multifunção pode soar atrativa para alguns, por conta da autonomia, mas o importante mesmo é sentir quais serão os recursos e profissionais necessários, desenvolvendo e aprimorando esses processos, que variam de filme para filme.

O que o trabalho de um documentarista sempre envolve, no entanto, é muita observação, paciência, leitura, pesquisa de campo, de materiais de arquivo. O diretor de um documentário precisa conduzir a história em todos os momentos, pois não existe um manual, uma planilha, uma fórmula, como muitas vezes é comum no cinema de ficção.

Quanto tempo demora cada projeto?

Tudo depende do tamanho da empreitada. Alguns projetos podem ser pesquisados, filmados e editados relativamente rápido – o que, para um longa-metragem, em geral significa alguns meses. Entretanto, a maioria dos documentários, pelo fato de envolverem muita pesquisa de campo, deslocamento e situações da vida real, acabam levando anos para ficarem prontos. Por isso, muitos documentaristas optam por trabalhar em mais do que um projeto ao mesmo tempo, dependendo da fase em que estão em determinado filme.

O importante é ter em mente que quase nunca será um processo rápido e tranquilo, já que o tempo no documentário desempenha um papel importantíssimo; em alguns filmes, o tempo é o próprio sujeito da ação. Por isso, paciência é fundamental.

Essa também é uma grande diferença do documentário e do jornalismo: para o documentarista, é preciso ter uma relação amorosa com o tempo; já o jornalista muitas vezes acaba desrespeitando um pouco o tempo, no sentido de ter que jogar a informação para o público imediatamente, sem se permitir a reflexão que um olhar demorado sobre o conteúdo pode gerar.

Quanto ganha um documentarista?

A resposta padrão de todo documentarista para essa questão é de que tudo varia muito, não existe um parâmetro. Muitas vezes, o projeto é financiado por conta própria, já que é relativamente barato fazer um documentário e quase sempre se trata de um trabalho autoral, embora sempre exista a possibilidade de vender o filme se ele for bem sucedido em festivais.

Editais e leis de fomento também podem ser boas opções para documentaristas, já que muitos contemplam verba de até 1 milhão de reais para longas-metragens de documentário. Já para curtas, normalmente o valor que se pode solicitar fica em torno de 100 mil reais. A divisão dos recursos entre o salário do diretor e as despesas de produção varia de acordo com as demandas de cada projeto, mas normalmente esse cachê não ultrapassa 15% do valor total do filme. No entanto, é possível buscar incentivos de diferentes fontes, o que permite maior autonomia financeira no filme e melhor remuneração para seus realizadores.

Há quem produza material para a internet, o que abre inúmeras oportunidades hoje em dia, ou também para a televisão – nesse caso de conteúdo “sob encomenda”, é bem possível que o ponto de vista do documentarista não esteja tão presente no filme. Mas como se trata de uma área bastante aberta e fluida, existem ainda profissionais que transitam entre a ficção e o documentário, e vice-versa.

Com um orçamento razoável, pode-se ganhar um cachê de até 15 mil reais como diretor de um documentário de longa-metragem. Considerando que geralmente o documentarista também produz o próprio filme, ou ajuda na produção, é sempre uma questão de saber negociar e adequar os recursos disponíveis. Contudo, para aqueles que ainda estão começando, que precisam ganhar experiência e habilidade na área, em algum momento acaba sendo preciso trabalhar por meio de incentivos ou “apostar” em um projeto, muitas vezes fazendo parcerias e recebendo valores bem mais baixos – tanto por acreditar na história quanto para “mostrar a cara”.

Como se tornar um documentarista?

Um movimento que tem crescido recentemente é o dos cursos de documentário. No passado, era mais comum pegar a câmera e sair fazendo filmes, curtas e até mesmo longas, ou partir de uma formação ou profissionalização no cinema ficcional para então experimentar o documental.

Estudar, especificamente se aperfeiçoando em documentário, pode ser interessante não apenas para conhecer pessoas com os mesmos interesses, mas para aprender na prática sobre questões logísticas, artísticas e éticas de se fazer documentários. Além disso, o que começa como uma aula com um documentarista reconhecido pode se tornar uma ponte para a sua carreira: se você se destacar, pode ser chamado para a equipe de pesquisa de um filme do seu professor, por exemplo, e dali para seu próprio documentário.

Mas o aprendizado vai muito além disso. A troca de informações é uma das partes mais essenciais de um documentário. Praticar em um ambiente controlado e favorável, sistematizando comportamentos e entendendo o ser humano (que será seu principal “objeto de trabalho”), é uma excelente maneira de começar. Por isso é bom fazer um curso, sim, mas também encontrar um grupo de pessoas com as quais você possa criar, dialogar, mostrar seus trabalhos, compartilhar suas ideias e tirá-las do papel.

Conviver com pessoas, trabalhar na maior quantidade possível de filmes, procurar uma formação teórica e prática. Essas são as bases do documentarista que está começando. A porta de entrada para o documentário deve ser o interesse pelo mundo, pelas coisas que você vê ao seu redor. A observação da realidade é sempre o primeiro passo.

Naturalmente, um curso não vai transformar aluno em cineasta automaticamente e imediatamente. Você precisa ir atrás do que quer falar, usando as ferramentas audiovisuais para contar isso. É uma longa jornada, que começa na descoberta de um assunto que o fascina. A partir daí, existem editais públicos de incentivo à produções documentais. Você pode inscrever seu projeto e conseguir financiamento, ou tentar transformá-lo em uma série para produtoras ou canais de televisão.

Referências e conselhos

Para quem busca referências na área, o filme “Cinema Novo”, de Eryk Rocha, é um ode à história cinematográfica brasileira e uma verdadeira aula de documentário.

Outro longa brasileiro interessante para quem deseja se tornar documentarista é “Edifício Master”, de Eduardo Coutinho. “Últimas Conversas”, também de Coutinho, traz entrevistas com alunos da rede pública do Rio de Janeiro, sobre suas vidas, seus sonhos e o que almejam para o futuro. Já o filme “Jogo de Cena”, do mesmo diretor, explora um pouco a fluidez entre o cinema de ficção e o documental.

O premiado documentário “Cameraperson”, de Kirsten Johnson, mostra o trabalho dela por trás das câmeras. A cineasta usa uma enorme quantidade de material gravado durante décadas ao redor do mundo para construir um panorama do olhar destemido de um documentarista e do poder da câmera.

Para aqueles que buscam um bom livro sobre o assunto, “A Dificuldade do Documentário”, de João Moreira Salles, fala sobre o cinema de não-ficção que, para muitos, pode parecer “absolutamente desorientador”, mas que não precisa ser tão difícil assim – afinal, não se trata de um documento da realidade, mas de um diálogo, uma maneira de falar com o público.

O principal conselho de quem já trabalha com documentários é saber escutar – tanto uma pessoa quanto uma paisagem. Escutar a equipe, os entrevistados, escutar o tempo. Acolher os fatos com sensibilidade e humildade.

Esse interesse pelo outro – mas ao mesmo tempo, ao falar do outro, acabar falando também um pouco de si mesmo – é o que precisa se destacar em um documentarista. Ele tem que estar sempre buscando coisas novas: procurando referências, vendo filmes, estudando, pesquisando, testando, praticando, viajando. Mas, principalmente, precisa saber lidar com gente.

Ter esse contato tão próximo com o que muitas vezes é diferente de você, mas que faz parte do mundo que você quer retratar, e encontrar a melhor forma de filmar isso, de expressar criativamente essa ideia, é um trabalho extraordinário.

Para o documentarista Michael Moore, a primeira regra do cinema documental é simplesmente essa: não faça um documentário, faça um filme. Se você quisesse fazer um discurso político, poderia se aliar a um partido, organizar um comício. Se quisesse dar um sermão, teria se tornado padre. Se quisesse dar uma aula ou palestra, teria virado professor. Mas, se você escolheu usar a arte do cinema para se expressar artisticamente e contar histórias, simplesmente faça isso!

O que fica na tela muitas vezes não é o que o diretor do documentário quer, mas o que tem mais força e impacto para a narrativa. Por isso, futuro documentarista, não queira impor suas ideias. Um filme documental pode levar o artista para caminhos completamente diferentes do que ele imaginou… e isso é maravilhoso!

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* Fontes consultadas para esse artigo, professores da Academia Internacional de Cinema: Bebeto Abrantes e Felippe Schultz Mussel.

**Foto Documentário “Joinha” dos ex-alunos Elizandra Fernandes, Juliana Lima, Maria Thereza Longobardi, Yasmin Thomaz.  Sinopse: O curta-metragem tem como cenário principal um bar que existe desde 1964 no bairro do Tatuapé, em São Paulo.