Cinema e feminismo: 8 filmes e séries para reflexão no Dia Internacional da Mulher
Neste Dia Internacional da Mulher, professoras, alunas e colaboradoras da Academia Internacional de Cinema – AIC, indicam filmes e séries que ajudam a pensar temas urgentes como direitos das mulheres, feminismo, patriarcado e igualdade de gênero.
Mais do que entretenimento, o cinema também é uma ferramenta poderosa para provocar reflexão e ampliar o debate público. Em um momento em que a violência contra mulheres continua sendo uma realidade alarmante no Brasil, discutir essas questões se torna ainda mais necessário.
Dados que assustam
Dados recentes mostram a gravidade desse cenário. Em 2024, o país registrou 1.492 feminicídios, o maior número da série histórica. Em 2025, os casos chegaram a 1.568, o que representa uma média de quase quatro mulheres assassinadas por dia por razões de gênero. A maior parte desses crimes acontece dentro da própria casa da vítima e é cometida por companheiros ou ex-companheiros.
A violência sexual também segue em níveis extremamente altos. Em 2024, foram registrados 87.545 estupros no Brasil, o equivalente a um caso a cada seis minutos. Especialistas alertam que os números reais podem ser ainda maiores devido à subnotificação.
Diante desse cenário, refletir sobre as estruturas que sustentam a desigualdade de gênero, como o patriarcado e as diferentes formas de violência contra mulheres, torna-se fundamental. O cinema tem sido um espaço importante para ampliar essas discussões, trazendo histórias que expõem desigualdades, questionam padrões sociais e apontam caminhos de transformação.
A seguir, confira algumas obras indicadas por integrantes da comunidade AIC.
Se você ou alguém que conhece está passando por alguma situação de violência, procure ajuda. Ligue 180, Central de Atendimento à Mulher.
Filmes indicados pela comunidade AIC
Absorvendo o Tabu (Period. End of Sentence)
Indicação de Monica Wojciechowski
Vencedor do Oscar de Melhor Documentário de Curta-Metragem em 2019, Absorvendo o Tabu aborda a menstruação, ainda tratada como um assunto proibido em diversas culturas, em uma comunidade rural no norte da Índia.
Segundo dados da ONU, cerca de 20% das meninas indianas abandonam a escola após a primeira menstruação, muitas vezes por falta de acesso a absorventes e por tabus culturais que associam o ciclo menstrual à impureza.
O documentário acompanha a chegada de uma máquina que produz absorventes biodegradáveis de baixo custo, permitindo que mulheres da vila fabriquem e comercializem o produto. Além de ampliar o acesso a itens básicos de higiene menstrual, a iniciativa gera renda e promove maior autonomia financeira para essas mulheres.
Direção: Rayka Zehtabchi
Onde assistir: Netflix
All Her Fault (Tudo Culpa Dela)
Indicação de Monica Wojciechowski
Entre os títulos escolhidos por Monica está também a minissérie All Her Fault, disponível no Amazon Prime Video.
A trama mistura suspense e drama ao acompanhar o desaparecimento de um menino. A partir desse evento, a narrativa explora segredos, mentiras e as complexidades das relações familiares.
Ao longo da história, a série levanta questões sobre a sobrecarga materna, as expectativas sociais impostas às mulheres e os julgamentos que recaem sobre mães em situações de crise, revelando como o machismo atravessa até mesmo as narrativas de culpa e responsabilidade.
Frances Ha (2012) e Lady Bird (2017)
Indicação de Raíssa Nosralla
Raíssa Nosralla destaca dois filmes escritos por Greta Gerwig, Frances Ha e Lady Bird, obras que abordam o amadurecimento feminino a partir de perspectivas íntimas e sensíveis.
Ambos retratam momentos de transição na vida de jovens mulheres que tentam encontrar seu lugar no mundo. Entre inseguranças, sonhos e conflitos familiares, as protagonistas enfrentam expectativas sociais, frustrações e o processo, muitas vezes turbulento, de amadurecimento.
“Muitas vezes, a narrativa feminina no cinema é reduzida a encontrar o amor ou superar um trauma. Esses filmes são relevantes porque celebram a jornada de autodescoberta”, afirma Raíssa.
Para ela, essas histórias validam sentimentos comuns na juventude adulta. “Eles mostram que o valor de uma mulher não está apenas nas conquistas externas, carreira, casamento ou metas, mas na coragem de continuar tentando descobrir quem se é.”
A Amiga Genial (My Brilliant Friend) e Die My Love
Indicação de Isadora Guero
Isadora Guero escolheu duas obras que refletem sobre a construção da identidade feminina e as pressões sociais que atravessam a vida das mulheres, a série A Amiga Genial e o filme Die My Love.
A Amiga Genial, adaptação dos romances de Elena Ferrante, acompanha décadas da relação entre duas mulheres que crescem em um bairro popular de Nápoles, na Itália.
Mesmo com uma narrativa envolvente e próxima de um grande drama familiar, a série constrói um retrato profundo das transformações sociais, políticas e culturais que atravessam a vida das protagonistas.
“Você cresce com essas duas garotas e descobre a realidade do mundo junto com elas”, comenta Isadora. “Mesmo com essa pegada mais popular, a série é extremamente política e constrói relações entre personagens em um universo muito bem desenvolvido que prende o espectador.”
Já o filme Die My Love traz uma narrativa intensa sobre maternidade, identidade e isolamento. A história acompanha uma mulher que, após se tornar mãe, passa a enfrentar um profundo sentimento de deslocamento e perda de si mesma.
Para Isadora, o filme dialoga com uma experiência compartilhada por muitas mulheres.
“O problema nunca foi sobre a criança”, explica. “A questão é a falta de rede de apoio, o isolamento e a perda do contexto artístico e urbano que antes alimentava aquela mulher. É a história de muitas mulheres que acabam sendo reduzidas apenas ao papel de mãe.”
Ainda Temos o Amanhã (2023) e Jeanne Dielman (1975)
Indicação de Mayara Constantino, coordenadora do TAC
Mayara Constantino escolheu dois filmes que evidenciam as estruturas de opressão e invisibilização das mulheres ao longo da história, Ainda Temos o Amanhã, dirigido por Paola Cortellesi, e Jeanne Dielman, 23 Quai du Commerce, 1080 Bruxelles, clássico de Chantal Akerman.
Ambientado na Itália do pós-guerra, Ainda Temos o Amanhã acompanha a rotina de uma mulher presa a um casamento abusivo e a um cotidiano marcado pela desigualdade e pela violência doméstica.
Já Jeanne Dielman, considerado um dos filmes mais importantes da história do cinema, retrata de forma rigorosa e quase hipnótica a repetição das tarefas domésticas na vida de uma mulher solitária, revelando como a rotina aparentemente banal pode esconder pressões profundas e silenciosas.
Para Mayara, os dois filmes dialogam justamente por evidenciar aquilo que muitas vezes passa despercebido, as estruturas sociais que moldam e limitam a vida das mulheres. Enquanto o primeiro mostra de forma direta os mecanismos de opressão e resistência, o segundo revela como a própria organização da vida doméstica pode ser um espaço de controle, silêncio e desgaste.
Cinema como espaço de reflexão
O cinema não resolve sozinho as desigualdades do mundo, mas tem o poder de torná-las visíveis, provocar conversas e ampliar o nosso olhar. Em tempos em que os direitos das mulheres seguem sendo constantemente ameaçados, assistir, debater e refletir também é uma forma de não aceitar o silêncio e de imaginar uma sociedade mais justa.
Foto filme Ainda Temos o Amanhã (2023)