Quero ser Diretor de Arte

Diretora de arte e professora da AIC, Monica Palazzo.

A Diretora de Arte e professora da AIC – Monica Palazzo

Imagine um trabalho em que um dia você é pesquisador e precisa descobrir tudo sobre os costumes de uma época e, no dia seguinte, você faz chover em uma movimentada avenida? Rotina? Difícil. Um diretor de arte precisa saber trabalhar em equipe e não ter medo de encarar rotinas de 10 a 12 horas de trabalho, seja dentro de um estúdio, seja no meio da floresta junto aos mosquitos. Ser diretor de arte não é tarefa fácil, exige dedicação e constante atualização. 

A diretora de arte e coordenadora dos cursos da área na Academia Internacional de Cinema – AIC, Monica Palazzo, preparou uma entrevista superbacana contando um pouquinho desse universo ora glamuroso, ora quase “bicho grilo”. Conheça um pouco da história da Direção de Arte, as remunerações, o dia-a-dia e também, sobre o Curso de Direção de Arte Avançado da AIC, que começa no próximo dia 21.

A Entrevista

AIC – Conte um pouco sobre a história da Direção de Arte.
Monica Palazzo – A história da Direção de Arte se confunde e se mistura com a própria história do cinema. Desde os filmes de viagens  dos irmãos Lumiére, que eram basicamente acontecimentos filmados, passando pelos filmes do Georges Mélies, mágico que dirigiu inúmeros filmes no início do século passado, e que, por ter em seus filmes narrativas construídas, usou de recursos cênicos e plásticos para ambientar suas histórias. Talvez ele mesmo seja o primeiro diretor de arte de cinema. Passando pelas grandes produções norte-americanas dos anos 20, 30 depois os musicais, ou a renúncia às grandes produções norte-americanas vindas com propostas estéticas e temáticas do cinema europeu dos anos 50, 60, os filmes com uma direção de arte sofisticadíssima do Godard, do Truffaut, que atuam em nível mais, ou menos sutil. A grande diferença é que não temos tanto material de pessoas que refletiam e/ou escreviam sobre direção de arte propriamente dita, e por isso eu disse que a história está totalmente atrelada à própria evolução da linguagem cinematográfica.

"As narrativas construídas e os recursos cênicos de Georges Mélies fazem dele um dos primeiros diretores de arte do cinema".

“As narrativas construídas e os recursos cênicos de Georges Mélies fazem dele um dos primeiros diretores de arte do cinema”.

Um dado curioso, o termo production designer (que na prática é o diretor de arte, e o art director, na prática, é o cenógrafo) nos EUA nasceu durante as filmagens do longa “E o Vento Levou”, no final dos anos 30. Já no Brasil, o primeiro longa com um profissional assinando a direção de arte é “O Beijo da Mulher Aranha”, no começo nos anos 80. Ou seja, a consciência e a responsabilidade de se ter um profissional responsável pela criação e execução da unidade visual de um filme em produções brasileiras é relativamente recente, e talvez por isso, aliada ao crescimento das demandas, é que a partir dos anos 2000, cada vez mais existe interesse das gerações em se aprofundar na área, e um curso faz com que as pessoas tenham consciência do processo criativo, o que proporciona a evolução do olhar e da capacidade de gerenciar uma equipe.

AIC – Como é o dia-a-dia de um diretor de arte?
M.P.: O dia-a-dia profissional do diretor de arte que está envolvido numa produção (ou em mais de uma, que é bastante comum) – depende da fase em que o(s) projeto(s) está(ão). Geralmente é composto por reuniões com equipe, pesquisa de referências tanto de forma virtual e física quanto de forma in loco, conhecendo a região e os costumes locais, projetando e acompanhando projetos e construções, aprovando materiais, orientando equipe, trocando e compartilhando informações, leitura sobre assuntos que possam respaldar e inspirar a equipe. E quando está na fase de filmagem, costuma ser uma rotina de 10/12h de trabalho no set. Ou seja, o dia-a-dia da profissão envolve um trabalho tanto intelectual quanto braçal (entendendo aqui braçal como a parte prática da profissão).

AIC – Quais as qualidades que alguém que pretende trabalhar na área precisa ter?

Cenário do curta "Volta pra Casa" produzido na última edição do Curso de Direção de Arte Avançado

Cenário do curta “Volta pra Casa” produzido na última edição do Curso de Direção de Arte Avançado


M.P.: Antes de tudo tem que gostar de trabalhar em equipe e de trabalhar com diversos saberes e seus profissionais. Sendo assim, tem que ter jogo de cintura para se adaptar aos universos com os quais vai lidar ao longo das produções, e ao mesmo tempo, saber se impor, afinal, o diretor de arte é um chefe de equipe, responsável pela criação da unidade visual do projeto.

Tem que ter uma formação intelectual ampla, e estar sempre estudando, inspirando-se, alimentando o olhar, repertório tanto teórico quanto técnico (na verdade, teoria e técnica andam de mãos dadas na nossa profissão). Saber desenhar, trabalhar em alguns programas gráficos de desenho, conhecer materiais e possibilidades, linguagem, lente, suporte a ser ousado. Precisa conhecer o workflow do material que está sendo gerado. O diretor de arte tem que ser artista e executivo ao mesmo tempo.

Nem sempre o trabalho será em produtoras com o conforto da equipe completa ou internet rápida, é bastante comum que as locações sejam distantes de grandes centros, e muitos profissionais da equipe (com exceção da equipe mais próxima) são pessoas que nem sempre trabalharam com produção (marceneiros, serralheiros, equipes de construção, assistentes locais).

AIC – E como são as remunerações /salário de um diretor de arte?
M.P.: Geralmente a gente fecha o cachê por semana em trabalhos longos (cinema, série) e por trabalho (no mercado é comum dizer “job”) para trabalhos mais comerciais.

AIC – Quais os filmes que você daria o Oscar para a direção de arte?
M.P.: Eu prefiro não dar o Oscar, mas sim, dizer que existem inúmeros filmes que tenho como referência, mas não tenho referencias principais, pois tudo depende do que estou buscando. Geralmente cito alguns diretores que têm um universo construído bastante particular, e uma relação com a direção de arte (e seus diretores de arte) bem afinada, o que acaba resultando em um trabalho plástico muito sofisticado, seja pela eloquência, seja pela sutileza…

"Moça com Brinco de Pérolas" - filme em que a direção de arte é inspirado na pintura de  Johannes Vermeer

“Moça com Brinco de Pérolas” – filme em que a direção de arte é inspirado na pintura de Johannes Vermeer

Filmes do Wes Anderson, Michel Gondry, Peter Greenaway, Jean-Pierre Jeunet, Tim Burton, Quentin Tarantino, Pedro Almodóvar – para citar os contemporâneos mais conhecidos. Filmes como “Casa de Alice” (dir. Chico Teixeira), “Sonhos de Peixe” (coprodução Brasil-EUA dir. Kiril Mikhanovsky). “Os Famosos e os Duendes da Morte” (dir. Esmir Filho), são três nacionais que tem uma direção de arte extremamente sofisticada e sutil. Além de filmes que se inspiram diretamente em pinturas, que eu particularmente adoro, “Moça com Brinco de Pérolas”, “A Festa de Babette” e “Goya”, para citar os mais conhecidos.

Sobre o Curso de Direção de Arte Avançado…

Diferença entre o básico e o avançado:
M.P.: Basicamente o Curso Avançado coloca os alunos numa posição de iniciados, e não de iniciantes. O trabalho prático do Avançado é o projeto de direção de arte completo: clima/atmosfera, defesa conceitual, palheta de cor, projeto e construção do cenário, produção de objetos, filmagem e desprodução de um roteiro de curta-metragem em formato esquete.

Pra quem é o curso?
M.P.: Ele é voltado para qualquer pessoa que tenha feito algum curso de DA na AIC ou curso em outra escola, com conteúdo reconhecido pela AIC, e/ou pessoas que tenham tido experiência no departamento de direção de arte, sendo assinando um curta-metragem, sendo atuando como assistente em produções maiores. Pessoas que vem de áreas afins, como cenografia, artes visuais, fotografia, figurino, maquiagem, e que tenham tido algum contato com a produção audiovisual.

É preciso ter experiência?
M.P.: Sim, pois o curso vai exigir um envolvimento da equipe, soluções criativas e técnicas já vivenciadas, ao mesmo tempo que os alunos serão a todo instante orientados de perto. A ideia é que aos alunos saiam da experiência do curso mais seguros para assumir assistência e/ou assinar projetos audiovisuais, pois vão ter vivenciado na prática o processo.

Primeiro Curso no Brasil…
M.P.: Até onde minha equipe e eu sabemos, não temos registro no Brasil de um curso com esse formato, com esta carga horaria e foco principal, que é a direção de arte e sua aplicação totalmente prática – pesquisa, defesa dos projetos, produção e filmagem de um curta-metragem.

Gravando um curta
M.P.: Na última edição do avançado, as propostas conceituais eram sofisticadas e pensadas nos mínimos detalhes, e isso é muito importante para um projeto de DA. Ao longo dos encontros, a turma foi se afinando cada vez mais, organizando-se, assumindo responsabilidades e dando conta dos compromissos assumidos, tal como em uma produção profissional.

Cenário do curta "Volta pra Casa", produzido na última edição do curso avançado.

Cenário do curta “Volta pra Casa”, produzido na última edição do curso avançado.

Os profissionais convidados foram extremamente generosos com a equipe, e vice-versa, então tivemos um set com clima harmônico, apesar da objetividade e correria que fazem parte de uma produção. Os atores convidados são profissionais com anos de set em longas, curtas, peças de teatro, isso mostra a confiança deles na proposta do exercício, e no trabalho com os alunos.

Tivemos um cenário montado no estúdio da AIC, com pintura e dressing, e uma locação com intervenções cenográficas, além do que, os alunos fizeram uma fotografia para fazer parte do cenário como objeto de cena em outra diária, uma semana antes da filmagem, e para essa foto tiveram que produzir a locação, vestir os atores, maquiar. Ou seja, criatividade e estratégia, pesquisa e mão-na-massa, tal como o dia a dia da profissão.

Confira o filme da última edição:


VOLTA PRA CASA from Filmes de Abril Produções Audi on Vimeo.