PROFISSÕES DO CINEMA – PARTE 3: Edição, Direção de Arte e Distribuição e Mercado

Finalizando a serie de reportagem sobre profissões de cinema, nesta última parte, um pouco mais sobre edição, direção de arte e distribuição e mercado. Com a intenção de mostrar um pouco sobre as funções e as etapas de produção do cinema, sete professores da Academia Internacional de Cinema (AIC) foram entrevistados, cada um em sua especialidade, falando sobre as funções específicas na cadeia produtiva audiovisual.

“Como definem a profissão?”, “Como veem o mercado de trabalho atualmente?”, “O que precisa ter um bom profissional nessa área?” são os temas abordados entre as nossas perguntas, sempre finalizadas com a indicação de filmes que sejam referência para estes profissionais que hoje dividem a realidade do set de filmagem com a sala de aula!

Conheça o editor e montador Samir Cheida, a diretora de arte Monica Palazzo e a produtora executiva Laura Fazoli e entenda um pouco mais sobre a área em que eles atuam.

 Edição – Samir CheidaEdiçao

AIC – Como você define o trabalho do editor?

Samir Cheida – Se pensarmos do ponto de vista prático, o montador (ou editor) é o responsável pela organização, seleção e junção do material gravado ou filmado durante uma produção audiovisual. O montador combina imagens e sons criados pela equipe de produção. Ao combinar elementos sonoros e visuais, o montador cria relações que produzem o sentido de um filme. Assim, o montador é a ponta do eixo que começa pelo roteiro, passa pela direção e termina no trabalho de edição. Dentro dessas três áreas que se constrói o sentido de um produto audiovisual. O sentido final de uma obra audiovisual também é responsabilidade do montador. Mais especificamente, é importante frisar que o montador também é responsável pelo ritmo do filme. A velocidade na troca de planos, na inserção de elementos sonoros, ou a lentidão dos mesmos conduzem o espectador pelo tempo e espaço da narrativa de um filme.

AIC – Como você vê atualmente o mercado de trabalho para os editores?



SC – Eu nunca vi faltar trabalho para bom editor. Por ter um papel essencial na construção de um filme, o montador sempre é necessário em todas as produções audiovisuais. E hoje, com o aumento da produção audiovisual no país, o mercado de trabalho se amplia ainda mais, e em diferentes áreas, como cinema, publicidade, televisão, internet etc.

Pra se dar bem no Mercado, acho que uma das principais qualidades é de uma boa edição é a sensibilidade. Cada projeto é único e não existem receitas de bolo que falem como um filme deve ser montado. O bom montador tem que ler e entender o projeto, para que possa construir uma linguagem de edição que melhor conduza o projeto do filme. Também são importantes para um bom profissional de edição ter postura, paciência para olhar horas e horas de material e certa frieza para escolher um bom plano e rejeitar algo que não funcionou.

AIC – Quais filmes você considera como referência essencial no trabalho de montagem e edição?

SC – “Tropa de Elite”, de José Padilha, trouxe um estilo de montagem que mudou o sentido do filme. Pensado para ser narrado pelo personagem André, durante a montagem percebeu-se a força do Capitão Nascimento e este personagem passou a ser o narrador do filme que todos conhecemos depois nas telas. O longa “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles, influenciou e ainda influencia a montagem não só de filmes nacionais mas também de filmes do mundo inteiro. “Apocalipse Now”, de Francis Ford Coppola, tem uma montagem complexa, mas espetacular!

Direção de Arte – Monica Pallazzo

Curso-Direcao-de-Arte_Foto-Alessandra-Haro_21AIC – Como você define o trabalho do diretor de arte?

Monica Pallazzo – A direção de arte é um departamento que cuida da construção de uma realidade, de um contexto para ser filmado. Ela é responsável pela criação da unidade visual e sua execução. O projeto visual está totalmente relacionada ao universo do(s) personagem(ns) e da história que será contata, cuja base está presente no roteiro. Mas que tem suas nuances e definições criadas ao longo do processo criativo, em conjunto com os outros departamentos.

Vejo a direção de arte como matéria-prima para a mis-en-scène, o recurso material, plástico e estético responsável pela construção da visualidade de uma peça audiovisual. Gosto muito desta frase que uso para definir resumidamente a abrangência e a responsabilidade do ofício: “dos armarinhos à construção civil; do artesanato às mais novas possibilidades digitais; a equipe de direção de arte de um filme lida com o mundo ao nosso redor para inspirar-se, recriá-lo e inventá-lo para que os personagens trilhem suas histórias, o fotógrafo as ilumine e o diretor, as capte com maestria”.

Um bom diretor de arte tem que ter repertório, tanto artístico quanto de experiência no mundo. Tem que saber trabalhar em equipe porque a direção de arte transita entre as diversas linguagens artísticas e profissionais, com diferentes especialidades como, por exemplo, desenho, arquitetura, moda, fotografia, história e teoria do cinema, história da arte, vídeo, entre outras linguagens das áreas do universo da direção de arte. Por fim, precisa ter grande capacidade de organização e planejamento.

AIC – Como você vê atualmente o mercado de trabalho para os diretores de arte?



MP – Desde que me mudei para São Paulo, em 2001, recém-graduada, muita coisa mudou. As demandas e necessidades do mercado audiovisual só aumentaram, dada a quantidade de janelas de exibição que vão desde as sala de cinema até conteúdos específicos para celular, por exemplo. Além disso, cada vez mais, show musicais e espetáculos artísticos têm em suas equipes um diretor de arte responsável pela criação de uma unidade visual – não só em relação ao cenário, mas ao espetáculo como um todo. Portanto, tem existido espaço para diretores de arte experientes e também para os mais jovens. E o que eu acho mais interessante ainda é a cartela de trabalhos diferentes, com histórias e linguagens distintas e universos estéticos diversos. Daí o profissional da área tem que saber como agir – como fazer o projeto estético e o desenho de equipe – em cada trabalho que assume, pois cada suporte exige determinadas escolhas e estratégias.

AIC – Quais filmes você considera como referência essencial no trabalho de direção de arte?

MP – Vou destacar filmes que trazem especificidades e visualidades diferentes no que tange a construção da Direção de Arte. O longa “Sonhos de Peixe”, direção do Kirill Mikhanovsky, traz a minha direção de arte numa coprodução Brasil-EUA. A história se passa no litoral do Rio Grande do Norte e é um filme super naturalista em atuação, linguagem e arte! Gosto muito porque ele tem um tom quase documental, apesar de ser uma ficção. Houve intervenção da direção de arte em todas as locações, algumas delas drásticas. Acho um desafio muito grande quando temos que encontrar o tom da arte em uma situação de total naturalismo.

Gostaria ainda de citar entre os filmes brasileiros, o “Acquaria”, com direção da Flavia Moraes e direção de arte do Tulé Peake. Tive o prazer de fazer parte da equipe de arte e cito esse filme por causa da construção de uma realidade fantástica, feita através do uso de recursos técnicos (como o “set extension” – construção de parte do cenário e aplicação em pós do restante) que não me recordo de ter visto novamente na nossa cinematografia nacional. A referência da base da criação veio dos quadrinhos dos artistas de HQ Moebius e Enki Bilal.

Entre as referências internacionais, tem alguns diretores que propõe em seus filmes a construção de um universo de direção de arte mais estilizado ou como reconstituição de época de maneira completamente iconográfica, como Wes Anderson. Há mundos mais fantasiosos, mas com uma base reconhecível forte na direção de arte em filmes de cineastas como Tim Burton, Jean Pierre Jeunet, Terry Gillian. E têm também as sutilezas sofisticadas na relação entre realidade, sonho e ficção, com o uso de truques cenográficos físicos e montagem em filmes dos diretores Michel Gondry e Spike Jonze.

Distribuição e Mercado – Laura Fazoli

AIC – Como você define o trabalho do distribuidor no setor audiovisual?IMG_1752_corte

Laura Fazoli – A distribuição do filme e sua colocação no mercado são a porta de saída da produção. Ou seja, o filme ou o conteúdo audiovisual, não morrem ao sair do set. Eles precisam atingir o público para o qual foi feito, botar o bloco na rua! A distribuição tem que ser pensada desde a ideia inicial pensando nas seguintes perguntas: ‘Para onde vai o filme?’, ‘Que público vai atingir?’, ‘Quanto de público se espera?’, ‘Quais os festivais que pretende participar para adquirir status?’. Também é necessário pensar em como serão as vendas para Tv, quais canais podem se interessar etc.Em resumo, um bom distribuidor precisa ter principalmente pró-atividade e saber negociar.

AIC – Como você vê atualmente o mercado de distribuição de filmes?



 

LF – Em se pensando exclusivamente no mercado de cinema temos um ponto conflitante: no Brasil faltam salas de cinema, principalmente para o escoamento das produções nacionais! Ao mesmo tempo, faltam filmes com nível para concorrência com produções internacionais quando se trata de blockbusters, como “Dia dos Namorados” ou “Até que a Sorte Nos Separe”, focados no grande público. Concomitante a essa situação, produções como “O Som ao Redor”, bate todas as expectativas de bilheteria por não ter uma grande demanda de público, como os citados anteriormente, mas que mesmo assim não fecha a conta, por mais que faça média superior de público por cópia. Em se tratando de vendas para Tv, o mercado é promissor inclusive em função da lei 12.485.

AIC – Que filmes você considera como referência essencial no trabalho de produção?

LF – “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatore, por ser a sala de cinema o personagem principal.

 

Confira também a primeira e a segunda parte da reportagem.

*Matéria de Paulo Castilho para Revista ZOOM – fotos Alessandra Haro e Mônica Wojciechowski