Filmes franceses que todo cinéfilo deveria conhecer

“Tenho pena do cinema francês porque ele não tem dinheiro. Tenho pena do cinema americano porque ele não tem ideias”. A afirmação do cineasta parisiense Jean-Luc Godard talvez carregue uma pitada de arrogância na provocação aos filmes hollywoodianos, mas também aponta uma característica marcante dos filmes de seus conterrâneos: a imaginação.

O estilo dos filmes franceses

Muito antes de a Nouvelle Vague conquistar o mundo com seu frescor e ousadia, o cinema francês já contava com uma filmografia respeitável, com destaque para produções surrealistas e de experimentação, que hoje fazem parte da história da sétima arte mundial. “A Nouvelle Vague foi, sem dúvida, o grande marco de uma forma de pensar e produzir cinema que a França inaugurou”, explica Larissa Figueiredo, cineasta e professora da AIC. “Grande parte da produção cinematográfica francesa contemporânea ainda se fundamenta nas heranças desse movimento”.

Entretanto, como qualquer movimentação estética, artística e social, a Nouvelle Vague estava atrelada às questões de seu tempo. Isso quer dizer que o cinema francês não se resume a esse período, embora seja preciso reconhecer que ele deixou marcas profundas e permanentes na forma de criação e produção cinematográficas que se estabeleceram em todo o continente europeu desde então.

“A França, historicamente, é um país muito ligado ao pensamento acadêmico e intelectual”, ressalta Larissa. “Muitos movimentos de vanguarda saíram das universidades francesas. O cinema francês, portanto, é um cinema que tem como característica esse movimento de exploração da linguagem e do simbólico, sempre conectados ao contexto histórico, social e político em que se inserem. Geralmente, são filmes que buscam tratar do particular para falar do universal e refletir sobre as questões que habitam a humanidade ao longo dos tempos”.

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Os melhores filmes franceses de todos os tempos

Listas de “melhores filmes” são sempre muito subjetivas e podem se tornar assunto delicado, já que cada pessoa tem suas preferências individuais. No entanto, é possível citar alguns cineastas e filmes franceses que todo cinéfilo deveria conhecer, seja por critérios de inovação artística, qualidade técnica ou popularidade.

De acordo com o site IMDb (Internet Movie Database), os mais bem cotados filmes franceses de todos os tempos são:

Lançado em 2011, “Intocáveis” se tornou o filme francês mais visto no exterior, superando 23 milhões de espectadores.
  1. A Regra do Jogo / La Règle du Jeu (1939), de Jean Renoir
  2. A Mãe e a Puta / La Maman et la Putain (1973), de Jean Eustache
  3. O Boulevard do Crime / Les Enfants du Paradis (1945), de Marcel Carné
  4. O Demônio das Onze Horas / Pierrot le Fou (1965), de Jean-Luc Godard
  5. Os Olhos Sem Rosto / Les Yeux sans Visage (1960), de Georges Franju
  6. Playtime – Tempo de Diversão / Playtime (1967), de Jacques Tati
  7. O Desprezo / Le Mépris (1963), de Jean-Luc Godard
  8. O Atalante / L’Atalante (1934), de Jean Vigo
  9. Os Incompreendidos / Les Quatre Cents Coups (1959), de François Truffaut
  10. A Bela e a Fera / La Belle et la Bête (1946), de Jean Cocteau e René Clément

Diretores franceses que todo cinéfilo precisa conhecer

Para Larissa Figueiredo, entre os maiores diretores franceses podem ser citados:

  • Marguerite Duras (diretora de Les Enfants, Le Camion e Destruir, Disse Ela / Détruire dit-elle; coroteirista de Hiroshima, Meu Amor / Hiroshima Mon Amour)
  • Jean-Luc Godard (de Acossado / À Bout de Souffle, Uma Mulher É Uma Mulher / Une Femme est une Femme, Viver a Vida / Vivre sa Vie: Film en Douze Tableaux)
  • Claire Dennis (Bom Trabalho / Beau Travail, Nenette E Boni / Nénette et Boni, 35 Doses de Rum / 35 Rhums)
  • Agnès Varda (Os Renegados /Sans toit ni loi, Cléo das 5 às 7 / Cléo de 5 à 7, As Duas Faces da Felicidade / Le Bonheur)
  • François Truffaut (Os Incompreendidos / Les Quatre Cents Coups, Jules e Jim – Uma Mulher para Dois / Jules et Jim, A Noite Americana / La Nuit Américaine)

 

Quem não lembra da deliciosa comédia francesa? Amélie é uma jovem do interior que se muda para Paris e logo começa a trabalhar em um café. Num belo dia, ela encontra uma caixinha dentro de seu apartamento e decide procurar o dono. A partir daí, sua perspectiva de vida muda radicalmente.

 

Destacam-se, ainda, Alan Resnais (Hiroshima, Meu Amor / Hiroshima Mon Amour, O Ano Passado em Marienbad / L’année Dernière à Marienbad), Abdellatif Kechiche (Azul é a Cor Mais Quente / La Vie d’Adèle), Chris Marker (A Pista / La Jetée), Claude Chabrol (Nas Garras do Vício / Le Beau Serge), Claude Lelouch (Um Homem, uma Mulher / Un Homme et une Femme), François Ozon (8 Mulheres / 8 Femmes), Henri-Georges Clouzot (O Salário do Medo / Le Salaire de la Peur), Jacques Audiard (O Profeta / Un Prophète), Jacques Demy (Os Guarda-Chuvas do Amor / Les Parapluies de Cherbourg), Jacques Tati (Playtime – Tempo de Diversão / Playtime), Jean Cocteau (A Bela e a Fera / La Belle et la Bete), Jean Renoir (A Grande Ilusão / La Grande Illusion), Jean-Pierre Jeunet (Delicatessen, O Fabuloso Destino de Amélie Poulain / Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain), Jean-Pierre Melville (O Samurai / Le Samouraï), Leos Carax (Holy Motors), Louis Malle (Adeus, Meninos / Au Revoir les Enfants), Luc Besson (O Profissional / Léon), Marcel Carné (O Boulevard do Crime / Les Enfants du Paradis), Michel Hazanavicius (O Artista / The Artist), Olivier Assayas (Depois de Maio / Après Mai), Olivier Nakache e Éric Toledano (Intocáveis / Intouchables, filme francês de maior bilheteria no mundo), Réné Clément (A Batalha dos Trilhos / Bataille du Rail), Robert Bresson (As Damas do Bois de Boulogne / Les Dames du Bois de Boulogne).

 

Para quem não conhece muito sobre o cinema francês, a professora Larissa Figueiredo recomenda Acossado / À Bout de Souffle (1960), de Jean-Luc Godard. “É o filme que inaugura a Nouvelle Vague e, com ela, o cinema de autor europeu – o contraponto à forma hollywoodiana de fazer cinema, dependente de grandes orçamentos e grandes estúdios. Além disso, é uma delícia de filme, com dois atores maravilhosos: Jean Seberg e Jean-Paul Belmondo”.

 

Há, também, alguns filmes franceses cujos diretores não são necessariamente da França, mas que poderiam entrar na lista de melhores filmes já produzidos no país: O Martírio de Joana D’Arc / La Passion de Jeanne d’Arc (1928), Rififi (1955), A Bela da Tarde / Belle de Jour (1967), Z (1969), Trilogia das Cores: A Liberdade é Azul, A Fraternidade é Vermelha, A Igualdade é Branca / Trois Couleurs: Bleu, Rouge, Blanc (1993-1994), Irreversível / Irréversible (2002), O Escafandro e a Borboleta / Le Scaphandre et le Papillon (2007), Amor / Amour (2012), Elle (2016).

Vale lembrar que um dos cineastas mais importantes dos primórdios do cinema, Georges Méliès, também era francês. Seu trabalho inovador e efeitos práticos realizados com técnicas de ilusionismo fazem de Viagem à Lua / Le Voyage dans la Lune (1902), até os dias de hoje, um dos filmes mais fascinantes da história do cinema – imprescindível a qualquer cinéfilo que se preze.

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Os 5 melhores filmes franceses de acordo com a cineasta e professora Larissa Figueiredo 

1) Bom Trabalho / Beau Travail (1999), de Claire Denis

“Claire Denis se afirma, com este filme, como uma das maiores cineastas dos nossos tempos. Através de um olhar sobre os corpos e o cotidiano de um grupo de soldados franceses da Legião Estrangeira, que foram abandonados no golfo de Djibouti, na África, Denis estabelece uma nova forma de representação da masculinidade no cinema, atravessando a violência da situação que permeia as vidas desses homens para reestabelecer o lugar de afeto entre eles e o mundo. A maneira de filmar esses corpos e seu trabalho no espaço do deserto resultou em cenas icônicas da história do cinema, com destaque para a que encerra o filme, que tem Denis Lavant como protagonista”.

2) Noite e Neblina / Nuit et Brouillard (1956), de Alain Resnais

“Jean-Luc Godard afirmou diversas vezes ao longo de sua vida que o maior crime do cinema foi o de não ter filmado o horror dos campos de concentração, pois a imagem sustenta a memória e a memória impede que as tragédias se repitam. Dez anos depois do esvaziamento de Auschwitz, o cineasta Alain Resnais vai até o campo de concentração e percorre as memórias do espaço vazio, buscando retraçar o horror de tudo o que ali se deu, colocando a nós, espectadores, também como testemunhas participativas das histórias daquele lugar”.

3) A esquiva / L’esquive (2004), de Abdellatif Kechiche

“O cinema é um jogo entre o real e o ficcional. É assim que Kechiche conduz os dispositivos narrativos desse filme, em que atores não profissionais, estudantes secundaristas da periferia francesa, tratam de seus dramas particulares através da reencenação de uma peça clássica de Marivaux. Os impasses das transformações da língua, dos espaços, das relações sociais e afetivas são colocados todo o tempo em cheque através dos conflitos dos personagens que conduzem a narrativa que se estabelece na fronteira entre documentário e ficção”.

4) História(s) do Cinema / Histoire(s) du Cinéma (1988-1998), de Jean-Luc Godard

“Sem dúvida, um marco para a criação cinematográfica mundial, como grande parte da obra de Godard, a começar por seu primeiro filme Acossado, que estabeleceu uma nova forma de fazer cinema no mundo. Nesta obra-monumento, que demorou dez anos para ser realizada, Godard tenta retraçar a história da humanidade, através de sua relação com o cinema e as outras artes, colocando em questão as formas de representação e os modos de ver e ouvir que se estabeleceram ao longo dos séculos. A partir dessas provocações estéticas, Godard cria um vínculo entre a vida, a arte e a política, ressignificando a ideia de linearidade temporal e narrativa para os acontecimentos históricos”.

5) A Humanidade / L’humanité (1999), de Bruno Dumont

“Um filme perturbador que trata da infinita solidão humana e das marcas de crueldade que inevitavelmente nos atravessam. A partir de um estupro que ocorre em uma pequena e pacata cidade no norte da França, um inspetor de polícia é levado a sair de seu lugar de apatia para desvendar o caso. Através desse processo, ele é obrigado a confrontar-se com seus medos e sua incapacidade para lidar com seus afetos e daqueles que o rodeiam. A partir de um trabalho com não-atores, Bruno Dummont cria um cenário onde tudo parte do real, inclusive a própria ficção. Não existe escape possível pela via da representação, tudo existe e funciona no tempo e espaço presentes; e somos completamente tomados por este universo de sentimentos crus e simples, pouco vistos e sentidos no cinema”.

*Texto de Katia Kreutz e fotos divulgação 


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