O que é a fotografia de um filme?

“Nós escrevemos histórias com a luz e a escuridão, com o movimento e as cores. É uma linguagem com seu próprio vocabulário e com ilimitadas possibilidades de expressar nossos pensamentos e emoções.”

As palavras do diretor de fotografia italiano Vittorio Storaro, um dos mais conceituados do mundo e responsável pela cinematografia de verdadeiras obras primas da sétima arte (como O Último Imperador e Apocalipse Now), expressam bem a importância desse trabalho na realização de um filme.

O que é fotografia – cinematografia?

A fotografia no cinema ou cinematografia é o elemento que diz respeito à captação das imagens, por meio de filmagens em película ou utilizando câmeras digitais. Ou seja, ela abrange tudo o que se relaciona à “impressão” daquilo que será visto pelo espectador, posteriormente.

Isso quer dizer que a direção de fotografia é a área que controla o processo de construção e o registro das imagens, levando para a tela toda a atmosfera e a linguagem imaginadas na pré-produção, por meio de ferramentas técnicas como iluminação, filtros, lentes, movimentos de câmera, enquadramento, cor, exposição, etc.

Uma definição genérica seria dizer que o diretor de fotografia ou cinematógrafo é o profissional que usa a câmera e a luz para transformar o texto do roteiro em imagens. Aliás, a palavra “cinematografia” vem do grego, numa junção entre kinema (que significa “movimento”), e graphein (“gravar”).

Quem faz a fotografia?

Dependendo do orçamento do filme, o diretor de fotografia não é o único profissional envolvido nessa função. Sua equipe, no set de filmagem, pode conter ainda o operador de câmera (chamado por alguns de cinegrafista), o assistente de câmera, o foquista (que faz o foco), além do eletricista (responsável por cuidar da iluminação) e do maquinista (que cuida dos maquinários, como trilhos e grua). Muitas vezes, esses profissionais também contam com sua própria equipe, de acordo com o tamanho e as necessidades da produção.

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Da pré-produção à finalização

Em um filme de longa-metragem, o ideal é que o diretor de fotografia esteja presente em todas as partes do processo, desde a pré-produção até a finalização. O arquivo, que você pode fazer o download ali em cima, é uma tradução da página da American Society Cinematographer (ASC), que diz quais são as responsabilidades do diretor de fotografia em cada etapa da produção.

Na pré-produção, algumas das responsabilidades desse profissional são a pesquisa e o estudo de referências para conceitualizar o roteiro e chegar a um consenso visual para a história, além da escolha de equipe e do equipamento, testes, visitas às locações, conversas com a direção de arte e análise da decupagem com o diretor.

Quando a equipe chega ao set de filmagem para a gravação, é hora de realizar o que foi pensado. Nessa etapa, o trabalho relativo à iluminação, ao controle de tempo, à movimentação de câmera, maquinário, enquadramento, composição e mesmo a liderança da equipe de cinematografia são algumas das principais responsabilidades do diretor de fotografia.

É também durante o processo de filmagem que a parceria da equipe de fotografia com a de arte se torna essencial. Cada uma dessas áreas tem seu tempo para preparar o set de acordo com as escolhas criativas daquele departamento. Nesse sentido, o diretor de fotografia e o diretor de arte devem trabalhar em conjunto, extremamente sintonizados, para a concepção e a execução da atmosfera visual do filme.

Por fim, a pós-produção ajuda a completar o processo da captação. Quando o fotógrafo está com o diretor até o filme ficar pronto, suas tarefas na pós incluem participar do trabalho de correção de cor com o colorista, dando soluções e sugestões para o ajuste fino das imagens, e fazer os testes de projeção.

Talento brasileiro

Edgar Brasil é considerado o patrono dos diretores de fotografia brasileiros. Ele trabalhou em Limite (1931), de Mário Peixoto, filme de linguagem ousada e extremamente inovadora. Já Luiz Carlos Barreto (pai dos cineastas Bruno e Fábio Barreto), foi diretor de fotografia de duas das mais importantes obras do Cinema Novo: Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos, e Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha.

No cinema contemporâneo, o principal nome da fotografia no Brasil é Walter Carvalho, responsável pela cinematografia de filmes como Central do Brasil (1998), Lavoura Arcaica (2001), Janela da Alma (2001), Madame Satã (2002), Amarelo Manga (2003), Crime Delicado (2005), O Céu de Suely (2006), A Febre do Rato (2011) e O Filme da Minha Vida (2017).

Outros brasileiros de renome na direção de fotografia são Adriano Goldman (O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias, Cidade dos Homens e Jane Eyre), Affonso Henrique Beato (O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, Tudo Sobre Minha Mãe e Carne Trêmula), Edgar Moura (Cabra Marcado para Morrer, A Hora da Estrela e Tieta do Agreste), Adrian Teijido (O Palhaço, Elis e Narcos), Carlos Ebert (O Bandido da Luz Vermelha, República da Traição e Metamorphoses), Heloísa Passos (Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo e Mulher do Pai) e Flora Dias (O Duplo, Sinfonia da Necrópole, Califórnia).

Quebrando barreiras

Para quem acha que essa área ainda está carente de destaques femininos, a verdade é que – em uma indústria potencialmente machista – a direção de fotografia sempre foi considerada “técnica demais” para as mulheres.

No entanto, esse cenário começa a mudar. Recentemente, a diretora de fotografia norte-americana Rachel Morrison entrou para história como a primeira mulher a ser indicada para o Oscar de Melhor Cinematografia, pelo filme Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi.

“Não se trata apenas de cinematografia. É sobre acreditar em si mesmo e acreditar que tudo é possível. Eu acredito que o trabalho do diretor de fotografia é visualizar emoção – coisa que nós, mulheres, fazemos inerentemente bem”, contou ela, em entrevista ao Daily Mail.

Nas palavras dos mestres

“Luz. Eu acredito que luz é conhecimento. Conhecimento é amor. Amor é liberdade. Liberdade é energia. Energia é tudo. Sem luz, não podemos ter imagens.
Todos os grandes filmes são resoluções de um conflito entre a escuridão e a luz. Não há um único jeito correto de se expressar. Há infinitas possibilidades para usar a luz, com sombras e cores. As decisões que você toma com relação à composição, ao movimento e às inúmeras combinações desses e de outros elementos é o que faz a arte.” – Vittorio Storaro (O Último Imperador, Apocalipse Now, O Último Tango em Paris)

“Eu acho que o público não sabe como um filme é iluminado, mas ele pode sentir. A linguagem do cinema é muito distante da linguagem do teatro e mais próxima da música. É abstrata, mas ainda assim narrativa.
Quanto mais ferramentas nós tivermos, diretores e fotógrafos poderão se expressar melhor e criar diferentes universos e sentimentos. É como ter mais instrumentos em uma orquestra.” – Emmanuel Lubezki (A Árvore da Vida, Filhos da Esperança, O Regresso) 

“Não há tantas surpresas com a cinematografia digital, mas você pode se arriscar mais. Também ajuda a dormir melhor o fato de que você não precisa acordar às 4h da manhã e ligar para um laboratório para ver se ainda tem trabalho a fazer naquele dia.” – Jeff Cronenweth (O Clube da Luta, Abaixo o Amor, A Rede Social) 

“Cada cena é um desafio. Há desafios técnicos, claro, mas muitas vezes são os obstáculos mais simples que dão um senso de conquista, quando superados.
Eu gosto de simplicidade. Gosto de usar fontes naturais de luz. Gosto que as imagens pareçam naturais – como se alguém, sentado em uma sala do lado de uma lâmpada, estivesse sendo iluminado por ela. Se você grava com um bilhão de câmeras, não há perspectiva. A ideia é usar um plano de cada vez, então é melhor descobrir sobre o que trata esse plano antes de gravar, ao invés de tentar criar algo na edição, algo que depois acaba se tornando genérico.” – Roger Deakins (007 – Operação Skyfall, O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, Fargo).

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*Por Katia Kreutz