Academia Internacional de Cinema (AIC)

O estilo de direção de Darren Aronofsky

O estilo de direção de Darren Aronofsky
“É uma linha muito difícil, como cineasta, saber quando é demais. E geralmente estou no lado errado dessa linha.” Darren Aronofsky. Foto: Niko Tavernise

Darren Aronofsky, conhecido por suas narrativas incômodas, explora a complexidade humana em seus filmes, como evidenciado em seu último sucesso: “A Baleia”. Fiel à sua estética, o diretor conduz o espectador por um espaço claustrofóbico, explorando o cotidiano de Charlie, seu protagonista, para revelar as limitações e tristezas da obesidade mórbida.

A atuação marcante de Brendan Fraser, lhe rendeu um Oscar. Mesmo soterrado sob próteses, ele humaniza o personagem, enquanto a trama busca redenção e conexão familiar.

Conhecido por seus filmes surreais, melodramáticos e muitas vezes perturbadores, o diretor e roteirista Darren Aronofsky descobriu seu lado artístico ainda muito jovem, em Nova York: na infância, era fã dos filmes clássicos; na adolescência, fez experimentações com grafite. No entanto, ao contrário de outros cineastas de sua geração, que aprenderam o ofício na prática (como, por exemplo, Quentin Tarantino e Christopher Nolan), Aronofsky acabou se formando em cinema na conceituada Universidade de Harvard.

O início da Carreira

Depois de ganhar alguns prêmios com seus filmes estudantis, o cineasta dirigiu daquele que seria seu primeiro longa-metragem, o enigmático “Pi” (1998), coescrito e estrelado por seu colega de universidade Sean Gullette.

Com um orçamento extremamente reduzido e fotografia em preto e branco, Aronofsky criou um interessante exercício de estilo em uma história de suspense sobre um matemático paranoico, que lhe rendeu críticas positivas e reconhecimento no Festival de Sundance e no Independent Spirit Award – importante premiação norte-americana para produções independentes.


Quer saber mais sobre os cursos da AIC –  entre em contato com o nosso atendimento


A parceria com Clint Mansell

“Pi” marcou também o início da parceria do cineasta com o compositor Clint Mansell, que continuou trabalhando com Aronofsky por várias décadas, criando as trilhas de seus filmes. “A música dele em “Réquiem para um Sonho” (2000) é uma das grandes composições para cinema, provavelmente dos últimos 30 anos. Ela consegue trazer melodia, prazer da escuta, ao mesmo tempo em que serve o filme, nesse caso um suspense com horror num libelo antidrogas. É difícil executar bem as duas funções: encantar e denunciar como música dentro de um filme”, afirma Leandro Afonso, professor da Academia Internacional de Cinema (AIC), pesquisador e diretor de cinema.

Embora Aronofsky tenha sentido a pressão de fazer filmes grandiosos depois do sucesso de seu primeiro longa, “Réquiem para um Sonho” (cujo roteiro se baseou no livro de Hubert Selby Jr.) teve uma boa recepção, a ponto de alavancar sua carreira de cineasta independente a uma grande promessa do cinema norte-americano. O impactante longa foi considerado controverso, pelas cenas gráficas de sexo e por retratar de maneira crua o uso de drogas, mas garantiu a Ellen Burstyn uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz.

Requiem para um sonho-com Jared Leto e Jennifer Connelly

Essa projeção resultou no filme seguinte de Aronofsky: “Fonte da Vida” (2006), um ambicioso longa-metragem de fantasia, com nomes de peso no elenco, como Hugh Jackman e Rachel Weisz. “Para mim, assistir a um filme é como ir a um parque de diversões. Meu pior medo é fazer um filme que as pessoas não considerem um ‘bom passeio’”, chegou a afirmar o diretor, cujos temores se concretizaram: além de “Fonte da Vida” ser um fracasso de bilheterias, o filme não conquistou muito os críticos.

O retorno do diretor visceral

A volta por cima de Darren Aronofsky aconteceu com “O Lutador” (2008), uma obra simples e focada no trabalho dos atores. O filme recebeu dois Globos de Ouro e foi indicado a dois Oscars – Melhor Ator e Melhor Atriz Coadjuvante. “Para mim, “O Lutador” é o filme em que Aronofsky mais se entrega, sem firulas e tremeliques, ao tamanho da atuação, à força das dores e amores de um anti-herói anacrônico, que é o personagem de Mickey Rourke. Vi duas vezes em dois dias, depois revi, e ele segue sendo um grande filme para mim”, comenta Leandro Afonso, que exalta ainda as situações triviais, mas ao mesmo tempo duras e dramáticas, do longa.

O Lutador (2008), com Mickey Rourke, recebeu dois Globos de Ouro e foi indicado a dois Oscars – Melhor Ator e Melhor Atriz Coadjuvante.

O sucesso de público e crítica acompanhou Aronofsky em seu longa seguinte: o suspense psicológico “Cisne Negro” (2010). Para interpretar a bailarina obsessiva que protagoniza a história, Natalie Portman se submeteu a uma dura rotina de prática de balé durante um ano e dispensou as dublês em boa parte das cenas de dança. Ela recebeu o Oscar de Melhor Atriz por esse papel, assim como o Globo de Ouro. Darren Aronofsky também foi indicado ao Oscar por seu trabalho no filme, mas acabou perdendo para Tom Hooper (de “O Discurso do Rei”).

As superproduções polêmicas

Os prêmios recebidos por “Cisne Negro” foram o aval que Darren Aronofsky precisava para realizar outro projeto arriscado, com um orçamento multimilionário: o drama bíblico “Noé” (2014), com Russell Crowe no papel principal. “Eu tento viver minha vida de modo a não ter arrependimentos. Assim, procuro escolher o caminho pelo qual tenho mais paixão, porque desse modo você nunca pode realmente se culpar por ter feito as escolhas erradas. Você sempre pode dizer que estava seguindo sua paixão”, disse o cineasta. Embora tenha faturado milhões nas bilheterias do mundo inteiro, o longa foi banido em alguns países (como os Emirados Árabes, Qatar e Indonésia), devido a questões religiosas.

Darren e Natalie Portman nas gravações de Cisne Negro. Para interpretar a bailarina obsessiva que protagoniza a história, a atriz se submeteu a uma dura rotina de prática de balé durante um ano. Ela recebeu o Oscar de Melhor Atriz por esse papel, assim como o Globo de Ouro Crédito: Fox Searchlight

Mãe!” (2017) também dividiu a crítica e o público. Protagonizado por Jennifer Lawrence, trata-se de outro terror psicológico com referências bíblicas e toques de surrealismo, incluindo cenas chocantes de extrema violência. A história acompanha a vida de um casal em um espaço de tempo indeterminado: ela, preocupada em reformar a casa; ele, um escritor sofrendo de bloqueio criativo. Posteriormente, ao perceber a confusão do público sobre as metáforas do longa, o diretor explicou tratar-se de uma alegoria à “mãe Terra”.

O estilo de Darren Aronofsky

“Aronofsky não tem exatamente um estilo pré-definido, porque seus filmes são muito diferentes. Acho que muito do estilo dele vem do tamanho do orçamento, e por isso ele varia tanto – ou pelo menos é minha impressão sobre seus filmes”, afirma Leandro Afonso. No entanto, algumas características recorrentes podem ser apontadas nas obras do diretor:

Fato concreto é que o cineasta não se preocupa muito com a reação do público ao seu trabalho, contanto que o espectador reaja de alguma forma. Sua intenção é fazer filmes memoráveis e sempre tentar criar coisas novas, mesmo que o resultado acabe causando estranheza ou escândalo. “Todo o meu trabalho vem de dentro. É passional. Filmar é tão duro, as pessoas estão constantemente dizendo ‘não’ para você. Eu não sei fazer de outra forma a não ser acreditando no material”, declarou Aronofsky, para quem ser mediano é a pior coisa que poderia lhe acontecer. Como artista, seu objetivo é trabalhar entre dois extremos: os aplausos ou as vaias.

*Texto e Pesquisa: Katia Kreutz. Edição e atualização Mônica Wojciechowski.

 

Sair da versão mobile