Festivais de Cinema Internacionais

Steven Richter, diretor de desenvolvimento e fundador da Academia Internacional de Cinema. Foto: Cora Coronel

Que cineasta não sonha em ver seu filme numa tela grande e, quem sabe, até receber algum prêmio? Para muitos realizadores, os festivais de cinema estão entre as melhores formas de conseguir alguma visibilidade, sejam para diretores estreantes ou veteranos. “É uma maneira de mostrar seu filme localmente, nacionalmente ou internacionalmente. Dependendo da importância do festival em que o filme é exibido, ele pode ser visto por críticos, aparecer online ou ganhar espaço na mídia impressa”, afirma Steven Richter, diretor de desenvolvimento e fundador da Academia Internacional de Cinema (AIC). A maioria dos festivais oferece prêmios, alguns dos quais podem ser até mesmo em dinheiro. Independentemente da premiação, vencer uma competição dessas não serve apenas para dar ao artista a sensação de reconhecimento por sua obra, mas também eleva a imagem do filme e pode garantir sua entrada em outros festivais, além de aumentar as chances de encontrar distribuidores dispostos a apostar nele. Isso vale especialmente para prêmios recebidos nos festivais mais concorridos – como Cannes, Veneza, Berlim, Toronto, Sundance, TriBeCa ou SXSW. De todo modo, qualquer divulgação é sempre valiosa para cineastas independentes.

Muitos dos espectadores nas exibições dos grandes festivais são profissionais da imprensa e distribuidores procurando por filmes que possam entrar em sua cartela de venda. Por isso, os produtores precisam ficar atentos não somente a possibilidades de distribuição dentro de seu próprio país, como também internacionalmente. Até mesmo os longas de estúdios muitas vezes buscam ter suas premieres em festivais, já que eles são conhecidos por dar aos filmes exibidos visibilidade e credibilidade no mercado cinematográfico.

Do Brasil para o mundo

Alfonso Cuarón recebeu o Leão de Ouro em Veneza por seu longa Roma

Em geral, filmes que fizeram uma carreira bem sucedida em festivais nacionais de grande porte têm maiores chances de serem aceitos nos internacionais. No entanto, nada impede os realizadores de tentarem a maior quantidade possível de inscrições.

Nesse caso, é preciso estar preparado para as respostas negativas, porém ser selecionado em um evento fora do país pode alavancar seu trabalho – seja ele de curta ou longa-metragem – para um outro patamar.

Antes de inscrever seu filme em um festival, vale observar o perfil das obras aceitas e verificar se as exigências do regulamento são compatíveis com ele. “O que pode acontecer é que muitos festivais internacionais que recebem filmes de outros países frequentemente aceitam apenas um certo número de trabalhos estrangeiros. Por exemplo, se um festival norte-americano recebe uma porção de filmes brasileiros e noruegueses, provavelmente eles tentarão equilibrar um pouco esses números – a menos, é claro, que o festival seja voltado ao cinema de um país ou região específica”, explica Steven Richter.

De acordo com Richter, há diversos festivais voltados a filmes brasileiros nos Estados Unidos – em Miami e Los Angeles, por exemplo. “Portland também tem um Festival Latino-Americano. Esses são bons locais para os cineastas do Brasil tentarem a sorte. Qualquer lugar do mundo que tenha uma população com imigrantes latino-americanos ou brasileiros pode ter um festival focado em filmes que valorizem essas origens”, ressalta o diretor. Para cineastas estreantes, festivais com categorias que buscam “descobrir novos talentos” são os mais indicados. É importante ir atrás de prêmios que se posicionem como descobridores de novas vozes no cinema, com categorias como “primeiro longa-metragem” ou “novos diretores”. São festivais que dedicam tempo e recursos para realmente assistir a cada filme enviado e buscam materiais inéditos. Além disso, muitos eventos possuem categoriais para filmes de estudantes, o que é ótimo para quem está começando e precisa de uma plataforma de exibição do seu trabalho.

Passo a passo

Hirokazu Kore Eda, diretor de Assunto de Família, recebeu a Palma de Ouro das mãos de Cate Blanchett no Festival de Cannes, 2018

Assim, uma trajetória possível para cineastas amadores seria começar submetendo seus curtas em festivais de filmes estudantis, ou seções de festivais maiores voltados especificamente a filmes de estudantes, para então se inscrever em festivais de curtas, passando em seguida para categorias de “novos diretores” ou “primeiros filmes” em festivais de longas-metragens. Naturalmente, essa ordem pode ser alterada, mas pode ser encarada como um caminho básico rumo a uma carreira consistente e bem sucedida em festivais – principalmente no que diz respeito aos internacionais. Nesse caso, desconsiderando os que exigem ineditismo, é interessante tentar primeiro ser aceito em festivais dentro do próprio país, para depois ganhar o mundo.

Fique atento também ao perfil do seu trabalho, para escolher o festival certo. “Considerando que seu filme seja de temática LGBQT, ele pode ser enviado para um festival como o Mix Brasil ou o Outfest, nos Estados Unidos. Ou então, se é um filme de terror, pode ser mandado para o Sitges, na Espanha, ou o Fantaspoa, em Porto Alegre. Se o filme é sobre crianças ou para o público infantil, há festivais para isso também; assim como há festivais para cineastas mulheres, como o POW, em Portland. Qualquer que seja seu nicho ou gênero, há um festival para seu filme”, destaca Richter.

Brigitte Bardot no Festival de Cannes, 1953

Essa “lição de casa” precisa ser feita: pesquisar que tipos de filmes cada festival aceita, quais são as datas de submissão do material, o que exatamente deve ser enviado e por quais meios (físicos ou digitais). No entanto, o primeiro passo é ter consciência de que uma carreira no cinema em geral se inicia dessa forma. “Não se preocupe com a rejeição”, conclui o diretor. “Deixe que as respostas negativas o incentivem a fazer melhor. Seja grato por estar em um campo competitivo que produz entretenimento, sim, mas também arte.

Você faz parte de um seleto grupo que luta para fazer filmes bons e, uma vez que conseguir sua chance, tudo será ainda mais significativo.”

Principais premiações ao redor do mundo

Entre os grandes festivais de cinema do mundo, talvez o mais badalado seja o Festival de Cannes, na França. A famosa Palma de Ouro é cobiçada por muitos diretores independentes que desejam se tornar mainstream. Ao longo de seus 71 anos de existência, o festival se tornou uma espécie de ponto de encontro para profissionais do cinema mundial, com direito a tapete vermelho e festas luxuosas à beira da Riviera francesa. Contudo, apesar de todo o glamour envolvendo a seleção de longas-metragens, o festival também premia curtas-metragens e jovens realizadores.

Quentin Tarantino despontou no Festival de Sundance com Cães de Aluguel

Outro evento de enorme importância no cenário cinematográfico mundial é o Festival Internacional de Veneza, na Itália. Os filmes são exibidos no renomado Palazzo del Cinema di Venezia, como parte de um evento cultural maior, a Bienal de Veneza. Fundado em 1932, é o festival mais antigo do mundo e premia seus vencedores com o Leão de Ouro. Nos últimos anos, o evento tem se estabelecido como uma “prévia dos Oscars”, já que aumentou a quantidade de produções norte-americanas em sua seleção e recebeu as premieres de vários filmes posteriormente “oscarizados”, como Gravidade / Gravity (2013), Birdman (2014), Spotlight (2015), La La Land (2016) e A Forma da Água / The Shape of Water (2017).

A tríade dos festivais europeus mais significativos se completa com o Festival de Berlim, também conhecido como Berlinale, na Alemanha. Fundado em 1951, logo após a Segunda Guerra Mundial, seu objetivo era criar uma vitrine do cinema mundial na cidade. Durante duas semanas, em geral no mês de fevereiro, a cidade fervilha com exibições de aproximadamente 400 filmes e festas repletas de pessoas famosas. Com quase meio milhão de ingressos vendidos todos os anos, o festival é o que recebe a maior quantidade de espectadores no mundo. O prêmio entregue aos vencedores é o famoso Urso de Ouro.

Guillermo Del Toro e o elenco de A Forma da Água no Festival de Veneza
(Photo by Pascal Le Segretain/Getty Images)

Já nos Estados Unidos, o destaque entre os festivais de cinema independentes é o Sundance Film Festival. Um dos mais celebrados e reconhecidos festivais do mundo, foi criado por uma organização sem fins lucrativos fundada pelo ator Robert Redford. Apostando em filmes produzidos fora dos circuitos dos grandes estúdios, o evento já revelou grandes nomes, entre eles Quentin Tarantino. O mesmo pode ser dito do Tribeca Film Festival, em Nova York, e do SXSW Film Festival (ou South by Southwest), que acontece na cidade de Austin. Toronto, no Canadá, também se tornou sinônimo de cinema com o TIFF (ou Toronto International Film Festival). Fundado em 1976, o evento agora é um palco para futuros candidatos ao Oscar, antecipando a chamada “awards season” (ou temporada de premiações). São mais de 300 filmes exibidos, de dezenas de países, prezando pela diversidade cultural, o que favorece as produções independentes. A revista Variety chegou a afirmar que o TIFF estaria atrás apenas de Cannes no que diz respeito a celebridades e oportunidades de negócios para profissionais do cinema, tamanha influência que o festival conquistou.

 


Deixe seu e-mail e receba

Convite para eventos gratuitos, entrevistas e dicas, promoções e descontos