Festivais de Cinema Brasileiros

O tapete vermelho, a projeção em uma tela grande, o aplauso do público… Para quem começa a fazer cinema, esse reconhecimento pode parecer algo distante, que só se vê na televisão durante a transmissão do Oscar. O que muitas pessoas não sabem é que o Brasil possui uma gama enorme de festivais e premiações para curtas, médias e longas-metragens. Festivais esses que podem ser ótimas chances de mostrar seu trabalho e fazer bons contatos. É verdade que o tapete vermelho talvez não seja algo tão recorrente por aqui, mas a oportunidade de ter seu filme projetado e visto pelo público certamente vale a inscrição.

Na lista dos grandes festivais brasileiros estão alguns já conhecidos e consagrados, como o Festival de Gramado, o Festival de Brasília, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Festival do Rio. No entanto, há inúmeros outros eventos dedicados ao audiovisual, nas mais diversas categorias, que podem garantir ao seu filme o que muitos produtores chamam de “carreira em festivais”.

De acordo com a produtora executiva Gal Buitoni, professora de produção da AIC, a dica é inscrever seu filme na maior quantidade possível de mostras e premiações, sejam elas competitivas ou não. “É preciso atirar para todos os lados, porque se você inscrever em 100 festivais, a probabilidade é de que seu filme seja selecionado em 10”, explica. “É muito bom conseguir entrar nos grandes festivais, mas eu particularmente não descarto nenhum. ”

Considerando que o processo de inscrições tem se tornado cada vez mais fácil, graças à tecnologia – hoje, a maioria dos festivais permite que as obras sejam inscritas pela internet, sem a necessidade de enviar DVD – o que o realizador precisa ter em mente é que quanto mais o filme for visto, melhor. “A ideia é circular muito”, completa Gal. Por uma questão de estratégia, a produtora recomenda sempre enviar primeiro para os festivais maiores, que possam exigir exclusividade, e depois para os menores.

Cadastre seu e-mail e faça o download do Guia de Festivais Nacionais. 

 


Pontapé inicial 

A visão de que os festivais possam ser vitrines para novos diretores é algo que se confirma na prática. Segundo Gal Buitoni, as mostras de curtas normalmente são os lugares onde os cineastas começam suas carreiras. “Em geral, ninguém faz um longa sem ter um curta, mesmo que a pessoa já tenha experiência em audiovisual. Por isso, participar em uma grande quantidade de festivais é importante para criar um portfólio consistente, com filmes que ‘rodaram’ bastante. Isso mostra o quanto seu trabalho foi prestigiado”, conta a produtora.

Contudo, é interessante estudar o perfil de cada festival, além de observar os selecionados e premiados de anos anteriores, para ver se o seu filme se encaixa no que está sendo pedido – com relação a tema, categoria, duração, etc. Isso se aplica ainda mais em filmes “de nicho”, como terror ou ficção científica, que possuem eventos específicos voltados exclusivamente para tais gêneros. Mas, acima de tudo, é importante não desistir quando receber um “não”.

Uma vez selecionado, o diretor ou produtor também precisa fazer o possível para comparecer pessoalmente à exibição de seu filme no festival. Essa pode ser uma excelente oportunidade de fazer networking, já que esse tipo de evento conta com a presença de muitos realizadores e colaboradores em potencial para futuros projetos – produtores, canais e até mesmo os próprios organizadores do festival. Afinal, as pessoas que participam dessas exibições fazem parte do mercado audiovisual e, por isso, é interessante que elas vejam seu trabalho. “É um investimento que vale a pena”, conclui Gal.

Cases de sucesso

Alguns cineastas muito respeitados no mercado audiovisual brasileiro iniciaram suas carreiras em festivais de cinema. O diretor pernambucano Gabriel Mascaro, por exemplo, ganhou visibilidade ao receber o Prêmio Especial do Júri na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, por seu documentário KFZ-1348. O filme seguinte, Um Lugar ao Sol, já avançou para festivais internacionais. Com o documentário Avenida Brasília Formosa, que estreou no Festival de Rotterdam, ele conseguiu apoio para o desenvolvimento do premiado Boi Neon e, posteriormente, dirigiu Doméstica – que recebeu prêmios em festivais nacionais como o de Brasília, Panorama de Cinema e Cachoeiradoc. Seu primeiro longa de ficção, Ventos de Agosto, também foi premiado em Brasília.

Outro realizador brasileiro que obteve grande reconhecimento com sua trajetória em festivais é Luis Fernando Carvalho. O cineasta chegou a relatar, para o jornal Correio Braziliense, a experiência impressionante de ver seu longa Lavoura Arcaica estrear para milhares de espectadores no Festival de Brasília: “Arreganhei meus olhos por entre a escotilha da sala de projeção e então pude ver, lá embaixo, a catedral submersa em um silêncio que jamais esquecerei.” O filme também foi exibido e premiado no Festival do Rio, na Mostra de Cinema de São Paulo e no Festival de Tiradentes, obtendo ainda muito prestígio internacionalmente.

Para quem trabalha com animação, muitas vezes os festivais também podem ser uma forma de expor seu talento. Foi o caso de Cesar Cabral, diretor e roteirista de O Dossiê Rê Bordosa. O curta recebeu o prêmio de Melhor Roteiro e Trilha Sonora Cine PE, Melhor Curta-Metragem no Festival de Paulínia, Melhor Curta-Metragem e Animação Brasileira no Festival Anima Mundi, Prêmio do Júri Popular no Festival Internacional de Curtas de BH e na Mostra de Cinema de Tiradentes e Melhor Roteiro e Montagem no Festival de Gramado. Esse reconhecimento alavancou a carreira de Cabral, que hoje está dirigindo seu primeiro longa.

Já o cineasta Daniel Ribeiro conseguiu, por meio de um curta premiado em festivais, impressionar investidores a ponto de transformá-lo em um longa. O curta-metragem Eu Não Quero Voltar Sozinho (premiado no Festival Paulínia de Cinema, Curta Kinoforum, Entretodos – Festival de Curtas de Direitos Humanos, Goiânia Mostra Curtas, CLOSE – Festival da Diversidade Sexual de Porto Alegre, Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá, Festival Nacional de Cinema de Varginha, Mix Brasil, For Rainbow, Festival Internacional de Cinema de Itu, Mostra Nacional no Curta Cine Malagueta, Festival Nacional Curtas-Metragens de Rondonópolis, Vitória Cine Vídeo, Fest Aruanda e Curta Carajás) deu origem ao primeiro longa-metragem do diretor, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho que estreou no Festival de Berlim em 2014 e foi escolhido para representar o Brasil na competição para o Oscar do ano seguinte.

Algumas curiosidades sobre os maiores festivais de cinema brasileiros

 

Festival de Brasília

  • Considerado o maior e o mais antigo festival de cinema do Brasil, surgiu por iniciativa de um professor de cinema da Universidade de Brasília, Paulo Emílio Sales Gomes, em 1965.
  • Um diferencial desse evento é que os filmes, tanto longas quanto curtas, devem ser inéditos e, preferencialmente, não premiados em outros festivais nacionais.
  • O principal prêmio do festival é o Troféu Candango, cujo nome faz homenagem aos brasilienses. A palavra “candango” vem de quimbundo kangundu, diminutivo de kingundu (ruim, ordinário, vilão), termo usado pelos africanos para designar os portugueses.

Festival de Gramado

  • É o segundo maior festival de cinema do país e o único realizado ininterruptamente há 46 anos.
  • Desde a sua 20ª edição, inclui não apenas produções brasileiras, mas também filmes de origem latina – de onde vem sua designação oficial: Festival de Cinema Brasileiro e Latino.
  • O famoso Kikito, estatueta entregue aos vencedores, representa o “deus da alegria”.

Festival do Rio

  • Surgiu da fusão de dois festivais de cinema anteriores: o Rio Cine Festival (que teve início em 1984) e a Mostra Banco Nacional de Cinema (criada em 1988).
  • Alguns dos nomes mais importantes do cinema mundial já passaram pelo Festival, incluindo Costa-Gavras, Dario Argento, Tom Tykwer, Roman Polanski, Leos Carax, Im Sang-soo, João Pedro Rodrigues, Masahiro Kobayashi, Louis Malle, Carlos Saura, John Waters, Peter Greenaway, Stephen Frears, François Ozon, Todd Solondz e os irmãos Paolo e Vittorio Taviani.

Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

  • Realizada pela Associação Brasileira Mostra Internacional de Cinema (ABMIC), com o reconhecimento da Federação Internacional da Associação dos Produtores de Filmes, é um evento cultural sem fins lucrativos.
  • Foi uma iniciativa do crítico de cinema Leon Cakoff, que passou a organizar exibições de filmes estrangeiros inéditos no MASP (Museu de Arte de São Paulo), ao longo da década de 1970. Mesmo com alguns filmes sem legenda ou tradução, as apresentações obtiveram significante audiência no museu.
  • O vencedor do primeiro Prêmio do Público da Mostra foi o filme Lúcio Flávio, o passageiro da agonia (1977), de Hector Babenco. O Jornal do Brasil chegou a publicar que o evento era o único lugar no Brasil em que as pessoas tinham o direito de votar, na época, já que o país se encontrava sob o regime militar.

*Texto e Pesquisa Katia Kreutz. Foto Bia Takata.

 


Deixe seu e-mail e receba

Convite para eventos gratuitos, entrevistas e dicas, promoções e descontos