“Antes do Fim”, de Cristiano Burlan, é destaque no Festival de Brasília

Por Katia Kreutz

Longa-metragem fala sobre um casal de artistas confrontando a morte

 

antes do fim
Os atores de Antes do Fim. Da esquerda para direita, Jean-Claude, Helena Ignez, Ana Carolina Marinho e Henrique Zanoni.

Em que momento a vida deixa de ser um direito e passa a ser um dever? Essa é uma das questões abordadas por Antes do Fim, longa-metragem do professor da Academia Internacional de Cinema (AIC) Cristiano Burlan, que estreia dia 17 de setembro na Mostra Esses Corpos Indóceis do Festival de Brasília. O filme também conta com a participação dos ex-alunos Renato Maia (montagem), Lucas Negrão (finalização de imagem), Helder Martins (fotografia), Emily Hozokawa (assistente de direção), Amanda Bortolo (produção de set) e dos professores Ana Carolina Marinho e Henrique Zanoni no elenco.

Uma coprodução entre a Bela Filmes e o Canal Brasil, tendo como protagonistas os veteranos Jean-Claude Bernardet e Helena Ignez, o filme trata com leveza de questões existenciais relacionadas ao corpo e à velhice, encarando o suicídio como um ato de resistência. “Jean sente-se preso na lógica de longevidade que a indústria farmacêutica impõe sobre ele e, por isso, planeja se suicidar”, explica o diretor. “No entanto, ao convidar sua parceira para acompanhá-lo, ela hesita.”

Essa não é a primeira parceria entre Burlan e Bernardet. “Quando finalizamos o filme Fome, que foi uma experiência muito forte para mim, a questão foi que eu não sabia direito como evoluir a partir disso”, conta o ator francês, radicado no Brasil. Contudo, o fato de o diretor trabalhar muito com improvisação acabou se mostrando um desafio interessante para Bernardet.

Já Helena Ignez, uma das mais importantes atrizes brasileiras e verdadeiro ícone do Cinema Marginal, afirma que atuar nesse filme foi uma experiência inspiradora. “Antes do Fim é reflexão e poesia. Cristiano Burlan é um mestre na criação da mise-en-scène e na relação do ator com a câmera”, ressalta a atriz, que viu o processo de interpretar uma personagem com a mesma profissão que a sua como uma espécie de autoindagação.

“Fatalmente, todas as pessoas percebem os efeitos do tempo em seus rostos”, diz Burlan, que tem buscado mais representatividade em seu cinema.  Nesse trabalho, a proposta foi questionar o lugar do idoso na sociedade. De acordo com o diretor, todos nós envelhecemos, mas continuamos sendo seres humanos e sentindo a vida em toda a sua intensidade. “O silêncio entre o casal, na história, não revela distância, mas intimidade. São anos de afeto compartilhado, mas ele quer dançar a morte, enquanto ela segue ensaiando a vida.”

Para Burlan, mais importante do que a oportunidade de trabalhar com duas figuras extraordinárias do cinema brasileiro foi explorar o encontro de dois corpos em uma fase na qual muitas pessoas simplesmente abandonam a vontade de viver. “O filme fala sobre a relação que se descobre entre esse casal de artistas, antes do fim. É uma celebração da vida, uma aceitação do tempo”, completa.

O cineasta e os atores estarão presentes no Festival de Brasília neste final de semana, para a exibição do filme. Essa é a terceira vez que Burlan participa do festival com um longa-metragem (anteriormente, ele competiu com Fome e Estopô Balaio). “São centenas de longas de muita qualidade. Estar entre os selecionados é bastante significativo para mim”, observa.

Cristiano Burlan nasceu em Porto Alegre, mas abraçou São Paulo como seu berço criativo há mais de uma década. Formado pela AIC, atua como diretor de cinema e de teatro, além de professor. Sua filmografia inclui mais de 20 filmes, entre eles o premiado documentário Mataram Meu Irmão. Atualmente, está finalizando seu mais recente longa-metragem, O Projecionista.

*Fotos Helder Martins 

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