Waldir Xavier coordena o curso de som da AICRJ

Waldir Xavier_F4Waldir Xavier, responsável pelo desenho de som de “Desde Allá”, filme vencedor do Leão de Ouro no último Festival de Veneza coordena o curso de Som para Cinema e TV da Academia Internacional de Cinema (AIC) do Rio de Janeiro. Responsável também pelo som de tantos outros importantes filmes nacionais, como “Central do Brasil”, “Abril Despedaçado”, “Cazuza” e “Casa Grande”, Waldir já assinou a edição de som de mais de 60 longas-metragens.

Em entrevista para a comunicação da AIC, Waldir conta um pouco sobre sua carreira, sobre como entrou na área de som e sobre o curso que começa na próxima segunda-feira (29) e traz como proposta uma imersão no áudio profissional, onde, em cada aula, uma diferente faceta da criação sonora para cinema será tratada, como desenho de som, som direto, dramaturgia sonora, edição de som, ambientes, efeitos, foley e mixagem.

ENTREVISTA

AIC – Como começou a trabalhar com som para cinema? Conte um pouco sobre sua trajetória dentro do cinema até chegar no som.

Waldir Xavier: Cursei cinema na Universidade de Paris VII e depois decidi seguir a formação profissional em Montagem, na França.  Então minha formação é de Montagem. Aprendi montagem trabalhando em moviolas e fitas magnéticas. Com o surgimento da montagem virtual, passei a trabalhar com Avid e Protools e rapidamente especializei-me em som, sobretudo porque poucas pessoas na França conheciam o trabalho de montagem em computador e, nesta época, deu-se de fato o surgimento do editor de som, do som digital etc. Fiquei fascinado pelas inovações trazidas pelo som. Vivenciei a passagem do som Mono para o som Estéreo, e depois para o som Digital. Parece conversa do século passado, e na verdade é (risos). Resumindo, sou um montador, e este é o meu interesse em meu trabalho de som em cinema.

No último dia de mixagem do filme venezuelano Desde Allá, em maio de 2015, nos Estúdios Astro, na Cidade do México. Da esquerda para direita :Waldir Xavier (editor de som), Lorenzo Vigas (diretor) e Jayme Baksht (mixador). Foto de Michelle Couttolenc

No último dia de mixagem do filme venezuelano Desde Allá, em maio de 2015, nos Estúdios Astro, na Cidade do México. Da esquerda para direita :Waldir Xavier (editor de som), Lorenzo Vigas (diretor) e Jayme Baksht (mixador). Foto de Michelle Couttolenc

AIC – Como é esse mercado de trabalho no Brasil?

W.X.: É um mercado crescente. Acho que a qualidade técnica e estética do som no Brasil está melhorando bastante e que as produtoras e diretores estão cada vez mais atentos à importância deste trabalho.

AIC – Qual a diferença de trabalhar para TV e para o cinema?

W.X.: O cinema requer mais atenção e pesquisa, e tem-se mais tempo do que na TV. Tecnicamente é um trabalho mais complexo pelo formato do som e da projeção.

AIC – Se pudesse premiar o som de três filmes, que filmes premiaria?

W.X.: Acho que penso mais em termos de diretores do que de filmes propriamente dito. Citaria então o nome de três diretores de distintas gerações. Robert Bresson, que explorou como ninguém a presença do som fora da imagem. Jean-Luc Godard, a meu ver o grande criador do som como elemento narrativo. David Lynch, um esteta que sempre dá muita atenção ao som como vetor sensorial de seus filmes.

AIC – Conte um pouco sobre o curso de som da AIC.

W.X.: O curso de som da AIC tem como grande objetivo proporcionar a seus alunos o encontro com profissionais que trabalham ativamente com som no Brasil. Apesar de ter cursado cinema em uma universidade francesa, minha formação como montador e como editor de som se deu através da experiência como assistente de montadores e editores. Hoje em dia é cada vez mais difícil poder formar-se trabalhando como assistente de montagem ou de edição de som pois estes postos de trabalho são cada vez mais raros tendo em vista as condições de produção que praticamente suprimiram esta função. O que é uma pena. O curso da AIC reaproxima o aluno com este saber de quem tem a experiência profissional como alicerce e que está atualizado com o mercado de trabalho.

AIC – Que dicas você daria para quem está começando na área de som?

W.X.: Que assista muitos filmes em boas salas de cinema e que procure perceber o som como um elemento dramatúrgico, e não apenas como uma ferramenta técnica.