Segundo dia da Semana de Cinema e Mercado tem Fabiano Gullane

 

Nesse segundo dia de palestras, a Academia Internacional de Cinema (AIC) recebeu  Fabiano Gullane, que estudou cinema e estreou na profissão como diretor de produção do curta “Cartão Vermelho” (1994) de Laís Bodanzky. Em 1994, fundou com o irmão a produtora Gullane e desde então, tem realizado muitos filmes de grande destaque, como: “Carandiru”, de Hector Babenco, indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes, “O ano em que meus pais saíram de férias”, em 2008, de Cao Hamburger, vencedor do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro em três categorias, incluindo melhor filme, “Até Que a Sorte nos Separe”, em 2012, recordista de bilheteria nacional do ano, com 3,5 milhões de espectadores e, em 2015, chegam aos cinemas o filme premiado nos festivais de Sundance e Berlim deste ano, “Que horas ela volta?”, de Anna Muylaert.

Gullane na AIC - Foto: David Corredato Takata

Gullane na AIC – Foto: David Corredato Takata

Gullane começou sua fala ressaltando sobre a importância do evento para o cinema brasileiro, pois há poucas iniciativas como a da AIC, na qual há um investimento na formação dos profissionais da área, que muitas vezes possuem um talento imenso, mas “não possuem um repertório técnico necessário para ter sucesso na área”.

O produtor também lembrou como começou na área, na época da faculdade, ele e o irmão cursaram cinema e participaram da produção de quase 30 curtas, trabalhando de tudo um pouco, os desafios que enfrentou e ainda enfrenta. “Foi sempre uma batalha, e continua sendo…  o que conquistamos acaba sendo mais visível, mas tem uma história de quedas, de erros, mas é uma trajetória de muita superação, de conquistas e a batalha não acaba nunca. Temos que trabalhar diariamente com muito foco e seriedade para que a produtora dê bons frutos. A vida para àqueles que vivem do cinema não é um sonho, não é uma realidade simples. E ainda mais para aqueles que vivem da produção independente. E o primeiro conselho que dou para quem está trabalhando de forma independente, é estar preparado para essa sucessão de desafios que será a vida de vocês. É ruim? Não, tem mais desafios!”

Com a retomada do cinema brasileiro entre 1993 e 1994 e a criação da Lei do Audiovisual, surge também a Gullane. Que começa no ramo, fazendo cinema, porém, com o tempo, também percebe que havia muito pouco olhar para o filme depois de pronto. “Ninguém sabia o que fazer. O que achávamos uma loucura, tanto trabalho, tanta dedicação, talento, e o projeto morria na praia.. na verdade, o filme, ele nasce depois que está pronto.  E assim, a gente monta a Gullane com esse objetivo, além de nos dedicarmos a financiar e fazer os filmes, tínhamos um olhar muito forte na sua comercialização. Queríamos fazer com que os filmes existissem para o mundo, não só para gente”.

O filme “Bicho de Sete Cabeças” lança a produtora para o mundo, e para Fabiano e seu irmão, ter acertado já no primeiro longa, “fez com o que o mundo os olhasse com mais respeito”. Depois com o filme “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, enfrentar o desafio de tentar vendê-lo fora do Brasil, já que ninguém conhecia ao diretor. Mas novamente tiveram sucesso e conseguiram comerciá-lo para mais de 35 países. “E com o tempo fomos melhorando, dominando essa operação de financiar, produzir, lançar e hoje com muita tranquilidade estamos prontos para fazer qualquer tipo de cinema” conta o produtor.

FINANCIAMENTO E COMERCIALIZAÇÃO DOS FILMES NO BRASIL E NO MERCADO INTERNACIONAL
Fabiano Gullane na AIC - Foto: David Corredato Takata

Fabiano Gullane na AIC – Foto: David Corredato Takata

 Como funcionam os projetos dentro da Gullane?

Há etapas que devem ser seguidas:

1ª etapa: a escolha do projeto.

Que demora mais ou menos um ano. Leva-se 12 meses para se escolher o projeto, pesquisar, fazer um argumento, ver se ele vai funcionar, dar uma primeira versão para o roteiro e transformá-lo num projeto executivo, que significa saber seu custo, se é comercial, se é mais um projeto onde leva uma assinatura ou se é para festivais.

2ª etapa: captação de recursos.

Normalmente, é onde se demora de 18 a 24 meses. Esse momento é usado para amadurecer o roteiro. E vender a ideia para as pessoas que irão dar cara e corpo a ele, os atores.

3ª etapa: com o dinheiro captado, pagam-se as dívidas do passado. Aqui é a fabricação do filme, que envolve a preparação – pré-produção – filmagem – pós-produção. E leva mais ou menos um ano para preparar até a última cópia dele.

Principais Mecanismos De Financiamento no Brasil
Gullane na AIC - Foto: David Corredato Takata

Gullane na AIC – Foto: David Corredato Takata

Fabiano comentou sobre as duas categorias de financiamento, que são: fomento direto e fomento indireto.

Fomento direto: o próprio fundo setorial (aquele criado para que as empresas de telecomunicações depositem uma vez ao ano sua contribuição ao CONDECINE), e hoje, é o principal mecanismo de financiamento.

Fomento indireto: por meio do qual, a pessoa recebe autorização da ANCINE para financiar. Gullane explica que aqui há duas formas de receber esse financiamento, “que pode ser pelas empresas que pagam imposto de renda e tenham lucro, podendo destinar até 4% desse imposto devido ou empresas da área audiovisual, que ao mandar dinheiro para fora, para suas matrizes, sofrem taxação sobre essa operação, e podem destinar até 70% do valor dessa taxa para investir no cinema”.

 

Gullane na AIC - Foto: David Corredato Takata

Gullane na AIC – Foto: David Corredato Takata

COMERCIALIZAÇÃO DO FILME

Gullane mostrou que se consegue fazer quatro tipos de venda, baseados nas janelas, nomes dados aos locais onde se pode comercializar o filme: cinema, Video On Demand (VOD), TV a cabo e TV aberta. E a venda pode ser por território, mercado doméstico, onde foi feito e o mercado internacional.

Cadeia Produtiva do Cinema

Produtor → distribuidor → exibidor

Qual é o papel de cada um?

O produtor, como diz Gullane, “é detentor dos direitos patrimoniais e do mandato de venda. Ele que irá vender para o mundo, doméstico e internacional. É responsável junto com o diretor de levantar o filme, saber se está bom, convidar as pessoas, financiar e, além disso, no final, depois de pronto, representá-lo comercialmente no mundo”.

A principal função do distribuidor é financiar a colocação do filme no mercado, ou seja, fazer a distribuição física desse filme em todos os exibidores.

Para vender o filme internacionalmente, Fabiano chamou a atenção para os países que tem tratado de coprodução com o Brasil. Para quem está começando, “é importante se inteirar de todas as leis, acordos que estão disponíveis. No site da ANCINE, você encontra tudo detalhadamente explicado. E claro, para vender internacionalmente, é importante estar em algum festival para obter reconhecimento”.

 OS FESTIVAIS

Fabiano respondeu a várias perguntas sobre a comercialização, produção dos filmes, mas também falou sobre a importância dos festivais para quem está tentando lançar seu filme. Para ele, “é necessário colocar os filmes em festivais, eles são uma plataforma de lançamento, um espaço de divulgação; realmente considero uma boa estratégia de promoção. Eles irão ajudá-lo na campanha de lançamento do seu filme”.