PROFISSÕES DO CINEMA – PARTE I: Direção e Roteiro

O cinema é, antes de mais nada, uma arte coletiva. O trabalho pode ser realizado tanto equipes mais reduzidas, como também por equipes compostas por centenas de profissionais necessários para a realização de um filme – desde a concepção da ideia da história, passando pela produção, até ser distribuído ao público expectador nas salas de cinema ou mesmo outras mídias.

Entender cada uma destas etapas é fundamental para a boa realização de uma obra. Pensando nisso, entrevistamos sete professores da Academia Internacional de Cinema (AIC) para falar, cada um deles em sua especialidade, sobre oito importantes funções específicas na cadeia produtiva audiovisual.

“Como definem a profissão?”, “Como vêem o mercado de trabalho atualmente?”, “O que precisa ter um bom profissional nessa área?” são os temas abordados entre as nossas perguntas, sempre finalizadas com a indicação de filmes que sejam referência para estes profissionais que hoje dividem a realidade do set de filmagem com a sala de aula!

Apresentamos aqui a primeira parte de uma série de três capítulos de entrevistas.

Direção – Claudio Gonçalves de Oliveira, professor do curso Filmworks da AICAula RED FW4_Foto Alessandra Haro_1

AIC – Como você define o trabalho  do diretor?

Claudio Gonçalves de Oliveira - O diretor de cinema é a figura-chave de um filme, um líder que deve saber ouvir os membros de sua equipe e envolvê-los, instigá-los a participar com entusiasmo de todo o processo do trabalho.  Deve ter capacidade de mediar conflitos dentro e fora do set.

Se está dirigindo um filme pequeno, de baixo orçamento, participará de todo o processo, desde a escritura do roteiro até a montagem do filme. É bom também ser bem informado e leitor de grandes obras da literatura, o que sempre dá boas referências de histórias e personagens.

Ao conceber a forma do filme, do como fazâ-lo, um director demostra a sua sensibilidade artística, capacidade produtiva e inventividade na hora de narrar uma história audiovisual.

AIC – Como você vê atualmente o mercado de trabalho para os diretores de filmes?



CGO - Para o diretor de cinema  de longa-metragem o mercado de trabalho é bastante restrito.  Não há uma indústria de cinema no Brasil que empregue e ajude a formar sistematicamente bons diretores. Cada um deles tem que se virar como pode.

O sistema de distribuição de recursos públicos também não favorece o surgimento de novos diretores numa escala mais ampla e sustentada, uma vez que são poucos, infelizmente, que acabam tendo acesso efetivo ao dinheiro para a realização de seus filmes. A distribuição de recursos é desigual e favorece sempre os mesmos grupos.

Um mercado que está se abrindo para os diretores é o da televisão.  O cenário parece ser bastante favorável para os próximos anos.

AIC – Quais filmes você considera como referência essencial no trabalho de direção?

CGO – Vou citar quatro: 1 – “Memórias do Subdesenvolvimento“, Tomás Gutierrez Alea. Filme cubano rodado em 1968 em que o diretor faz uma reflexão madura e isenta a respeito da Revolução Cubana. Um filme estética e politicamente muito sofisticado. Uma obra prima do cinema latino-americano; 2 – “Ran“, Akira Kurosawa. O maior diretor de cinema que já existiu nesse pequeno planeta do sistema solar. “Ran” é um filme da última fase do mestre japonês, uma obra prima do cinema universal, irretocável e perfeito como vários outros filmes dele; 3 – “Os Inconfidentes“, Joaquim Pedro de Andrade. Um filme irônico, ácido, que trata com profundidade e distanciamento de um dos períodos mais importantes da nossa história: a Inconfidência Mineira, sempre discutida numa chave maniqueísta e/ou ufanista. Joaquim Pedro foi o diretor mais brilhante do Cinema Novo Brasileiro; 4 – “Ghost Dog“, Jim Jarmush. Um filme que celebra o multiculturalismo, o diálogo e a interpenetração das culturas, das distintas gerações e gêneros também; e condena a intolerância, o desrespeito e a quebra do código de conduta e do bom convívio entre todos.

Roteirista – Thiago Fogaça, roteirista e professor do curso Filmworks da AIC

AIC – Como você define o trabalho  do roteirista?

IMG_3850_cortada_bThiago Fogaça – O roteirista é o compositor da música que o diretor, o condutor da orquestra que fará a performance ao público. Sem roteiro, não há música para ser tocada, não há uma planta para se construir o prédio, não há uma receita para ser cozinhada. Ninguém tem um trabalho no set até que a palavra “FIM” seja escrita. Ele trabalha de perto com os produtores e com o diretor para saber o que é possível dentro do orçamento e qual o tom e o estilo que o filme deve ter.

Para ser um bom roteirista é necessário observar bem as pessoas, o que está por trás de suas ações e falas, o que lhes dá motivação, o que cria empatia e interesse em conhece-las, quais são os medos e desejos mais comuns e quais são os dilemas que afligem a maioria de nós. É preciso conhecer muito sobre a natureza humana.

A função do escritor do filme é contar uma boa história e isto envolve criar personagens cativantes, situações interessantes, ter algo para dizer ao mundo e saber como fazê-lo utilizando o meio audiovisual. É necessário todo um estudo e conhecimento de escrita dramática e storytelling para entender o que é ou não possível fazer ao contar uma história para o cinema. A principal preocupação do roteirista é entender como o que ele está colocando no papel ficará na tela, assim como, qual o impacto emocional que isto irá causar na audiência.

AIC – Como você vê atualmente o mercado de trabalho para os roteiristas?



TF – Nos Estados Unidos, onde estudei e trabalhei por alguns anos, o roteirista iniciante precisa conseguir um agente para ter visibilidade. Isto acontece devido ao avassalador número de amadores querendo escrever filmes.

Para se conseguir um agente, o truque é apenas escrever bem e bastante. Um agente que pode te aceitar como cliente te pedirá vários exemplos de sua escrita em vários meios: TV, filme, animação, etc. Além de várias idéias e argumentos.

Muito raramente você chegará apenas com um roteiro bem escrito e conseguirá um agente. Eles sabem que um bom profissional é aquele que não só escreve algo sensacional, mas consegue repetir tal resultado várias vezes. Há também a possibilidade de conseguir visibilidade através de concursos e bolsas de universidades, cursos e programas conhecidos.

Já aqui no Brasil se resume muito a quem você conhece. O mercado está se desenvolvendo em proporção geométrica, porém ainda existem poucos jogadores em campo. Conhecê-los e criar um elo de respeito e profissionalismo é essencial.

Como as coisas ainda estão começando, o mercado ainda não entende a importância e, principalmente, o valor de se investir na pré-produção de um filme. Você provavelmente irá começar trabalhando de graça, fazendo exemplos de episódios de TV ou cenas para a avaliação de produtores e diretores. Seja paciente e demonstre interesse e então você será contratado.

AIC – Quais filmes você considera como referência essencial no trabalho de roteirista?

TF – ”Procurando Nemo” – Não é só um filme popular (é o DVD mais vendido da História), mas também impacta pessoas anos depois de o assistirem. É muito difícil passar uma discussão temática significativa e tocante para crianças, pois elas têm um foco diferente do que adultos. E é difícil fazer um adulto se emocionar e pensar em uma animação infantil como algo que possa ter uma mensagem com um significado profundo sobre o dilema de pais superprotetores que só querem a segurança de seus filhos versus filhos que querem liberdade para fazer o que bem entendem e aprender errando.

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” - Todo filme do roteirista Charlie Kaufman é sempre uma lição de dramaturgia, incluindo “Adaptação”, que é um filme sobre a adaptação das espécies, a adaptação de seres humanos frente a difíceis mudanças em suas vidas e a adaptação de histórias em artigos, livros e roteiros. O filme atinge as pessoas porque tenta desvendar a causa do que inicia e termina um relacionamento amoroso e funciona tão bem porque passamos a conhecer todos aqueles momentos íntimos que o fizeram os protagonistas se apaixonarem, contado de forma não-linear, utilizando-se da magia da ficção para brincar e tentar remodelar tais lembranças. Relacionamentos terminam e pessoas se apaixonam todos os dias e o filme nos relembra o porque fazemos isto através de uma trama inteligente e um estilo único.

Chinatown” – Esté é um dos filmes mais analisados em termos de roteiro. Não à toa, trabalha muito bem uma estrutura de mistério, suspense, reviravoltas e manipulação humana. O que atrai tantos roteiristas a analisar tal filme é que ele consegue esconder todos os elementos de uma boa história de uma maneira que não parece que estamos seguindo uma trama meticulosamente calculada por um escritor. Em nenhum momento os personagens mudam de atitude sem que haja algum subtexto que faz sentido. Em nenhum momento algo inesperado acontece sem que tenha vindo de um personagem com decisões inteligentes e inesperadas. Não há acontecimentos aleatórios que servem apenas para avançar a história para frente. Tudo sempre ilumina algum ponto obscuro de um ou outro personagem e nos faz pensar sobre a temática do filme. Em vez de reviravoltas forçadas, tem uma trama bem estruturada na qual o detetive Gittes não sai atrás de uma caçada sem rumo e sim de passos lógicos e conclusões plausíveis aos seus problemas. Tudo isto enquanto a história vai descascando camada por camada do que cria uma pessoa corrompida pelo poder, Noah Cross, e quais as suas consequências de suas ações na política, sociedade e até em sua própria família.

Confira também a segunda e a terceira parte da Reportagem.

*Matéria de Paulo Castilho para Revista ZOOM – fotos Alessandra Haro e Mônica Wojciechowski