Professores e Alunos na Mostra de Tiradentes

Amanhã começa um dos mais ousados festivais do país, a 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Até o dia 30 de janeiro a cidade mineira é palco da diversidade da produção nacional e apresenta mais de 100 filmes brasileiros em pré-estreias mundiais e nacionais. Entre os filmes está o primeiro longa-metragem do cineasta Thiago B. Mendonça, “Jovens Infelizes”, que tem sua estreia nacional, no dia 29 de janeiro, às 20h. O filme conta com a participação de dois professores e dois ex-alunos da Academia Internacional de Cinema (AIC). André Moncaio assina a Direção de Fotografia, Renan Rovida fez a preparação de elenco e também atuou e os ex-alunos Ronaldo Dimer  e Luiz Augusto Moura fizeram assistência de câmera.

Aborto” do ex-aluno Lincoln Péricles, também tem sua estreia na mostra, no dia 28/01, às 22h, no Cine Tenda. O filme fala sobre como um casal de proletários refletem sobre seus trabalhos e lidam com uma impossível gravidez.

Jovens Infelizes

Produzido de forma independente dentro de uma perspectiva em que o documental invade a narrativa, o filme desconstrói a trajetória artística e política de um grupo de jovens, que intensificam até o limite as relações entre arte e vida.

O professor Renan Rovida fala que o filme é sobretudo sobre nosso tempo. “Um filme que reflete sobre o papel do ‘artista’ na nossa sociedade e na raiz do que é ser artista hoje: nada menos do que não aceitar o mundo organizado pelo capitalismo. No filme, um grupo de jovens, vê cada vez mais o horizonte se fechar à possibilidade de qualquer transformação e, juntos, decidem realizar um último ato estético e político”, conta.

Rodado durante a Copa do Mundo de 2014, o longa acompanha de forma orgânica os protestos e a violenta repressão da polícia. “Este é um filme espelho sobre minha geração e suas lutas. Sobre a forma como nos apropriamos da nossa cidade, das suas ruas e espaços. Como sentimos, amamos e lutamos num mundo de horizontes rebaixados”, afirma o diretor Thiago B. Mendonça.

“Jovens Infelizes” integra a Mostra Aurora, que neste ano traz sete títulos inéditos e valoriza o cinema contemporâneo de invenção e experimentação.

Direção de Fotografia

André Moncaio conta que o filme tem uma textura granulada e “suja” como forma de representar a falta de caminhos e de esperança dos jovens. “A linguagem de câmera veio muito clara na proposta do diretor e entramos imediatamente de acordo. O filme foi feito praticamente todo com câmera na mão em plano-sequência, permitindo que a ação se desenvolvesse com liberdade diante da câmera, em um misto de cena preparada (mise en scène pré-definida) e interpretação/movimentação livre dos atores. Já o conceito de iluminação buscou transformar em imagem o conflito principal, através de um desenho de luz contrastado que privilegiasse o espaço cênico e no qual os atores pudessem circular entre a luz e a penumbra”.

Moncaio diz que as principais referências para todo o trabalho foram os filmes “Manhattan” do Woody Allen, “Estranhos no paraíso” do Jim Jarmush e “Lola” do Fassbinder. “Cada um deles foi importante para um aspecto. ‘Manhattan’ foi referência para o uso de fontes de luz em quadro e para a atmosfera ‘elegante’ da luz, com muitas áreas escuras. ‘Estranhos no Paraíso’ me trouxe uma referência de luz naturalista, na qual se tem a sensação de que a luz vem apenas de fontes cotidianas como janelas, lâmpadas etc. As cenas de cabaré do ‘Lola’ foram referência para a cena inicial do filme. A forma como as cores ‘tingem’ a pele e os cabelos dos atores nestas cenas foi uma inspiração fundamental para a atmosfera que eu precisava. A ideia foi provocar desconforto, iluminando os atores com cores de luz ‘anti-naturais’ para a pele, como o Ciano, o Magenta, o Amarelo e o Verde”.

Preparação de Elenco

Renan Rovida, que faz o papel de um ex-padre desiludido com a igreja, também preparou o elenco. Toda a atuação teve como pressuposto o naturalismo. “Trabalhamos muito para que todos entendessem a linguagem que estava sendo construída no filme e dentro dela pudessem estar livres para criar. Uma linguagem que em muitas situações era documental e em outras, altamente estilizada. A preparação se concentrou na ilimitada capacidade imaginativa de cada ator e atriz e no diferencial que um ator que está imbuído disto pode acrescentar a uma interpretação para cinema. Com muito trabalho de todos, os personagens foram ganhando vida e o Thiago Mendonça ia, acertadamente, mexendo no roteiro, dependendo do que observava. Como eu era preparador e ator, e o Thiago esteve presente em toda a preparação, nós tínhamos um combinado que em determinado momento o preparador sumiria, para que eu pudesse trabalhar só como ator junto aos outros”.

Sobre seu personagem, Rovida conta que foi inspirado em um padre que andava junto com os surrealistas e que mesmo excomungado continuava andando de batina. “Assim, o personagem é quase uma alegoria. Um ser estranho ao grupo retratado e ao mesmo tempo, familiar. Li muito a bíblia, poesias e textos de padres e ex-padres como Dom Pedro Casaldáglia, Frei Betto e Leonardo Boff. Além de andar pelos lugares onde o personagem andaria, como a região da Cracolândia no centro de São Paulo. Trabalhei muito para que quem assista veja o personagem e não a atuação, ainda que sempre seja eu ali, mas para que a cena seja reconhecível como vida, mesmo em situações limite. Creio que com isso o cinema se torna mais vivo porque parte da realidade para retornar a ela, na perspectiva de transformá-la”.

Trailer Jovens Infelizes

TRAILER Jovens infelizes ou Um Homem que Grita Não é Um Urso que Dança from Memória Viva on Vimeo.