O Papel do ATOR

Henrique Zanoni, ator e professor do Curso de Interpretação para Cinema da Academia Internacional de Cinema (AIC) OLYMPUS DIGITAL CAMERAprotagonizou diversos filmes, entre eles os longas “Sinfonia de Um Homem Só”, “Amador” e “Dilema do Prisioneiro”. Apaixonado pelo que faz, acredita que cada trabalho é único e que, para produzir mais e melhor, é preciso estar sempre rodeado de pessoas interessantes e potentes. Em entrevista exclusiva para a comunicação da AIC, Henrique fala sobre seu trabalho, sobre suas crenças como ator e dá dicas valiosas para quem quer se jogar de cabeça no mundo da atuação para cinema. Confira!

A Entrevista

AIC – É importante fazer curso específico para atuar em cinema? Por quê?

Henrique Zanoni: Uma das coisas que me maravilha no ofício de ator, seja no teatro ou no cinema, é que acaba…mas nunca estamos prontos! Ou seja, quando nos preparamos para um empreitada artística, sabemos que podemos mergulhar no processo criativo até nosso limite, porque aquilo tem um prazo de validade. Mas você constantemente, repito, seja no cinema ou no teatro, sempre pode ir além, agregar, somar, subtrair. Dessa maneira, acredito que qualquer formação – considerando, claro, aqueles que cada um julgar interessante – é válida.

Dada todas as questões envolvidas no fazer cinematográfico e suas especificidades, claro que um curso ajuda, e muito! Principalmente quando ouvimos “ação”! Mas acredito que a formação vai muito além de apenas um curso. É uma formação diária, constante.

AIC – Muitos atores de cinema e TV parecem não conseguir fugir de caricaturas, parecem sempre ser o mesmo personagem. Como fugir disso?

H.Z.: Claro que todos os atores possuem métodos, rituais, exercício, técnicas etc., para criar seus personagens. Mas isso não pode representar UM método, UM exercício. Temos que nos deixar aberto para o imprevisto, para o jogo com o outro, para a câmera, enfim, para todas os acasos e forças que nos são colocados, a todo momento, num processo criativo.

Henrique em cena do filme "Sinfonia de Um Homem Só", de Cristiano Burlan.

Henrique em cena do filme “Sinfonia de Um Homem Só”, de Cristiano Burlan.

Acho também que todo ator – na realidade, todo nós! – temos nossos muletas, nossos clichês, nossos portos seguros. Como diz Deleuze, ao pegar um papel em branco (um quadro ou um personagem, por exemplo), na verdade ele está cheio de clichês, de lugares comum. O verdadeiro processo está em limpar a “área” para que novas coisas possam surgir. Como fazer isso? Talvez essa seja um grande pergunta!

E, vale ressaltar, que trabalhar com pessoas em quem você confia ou acredita ou te desafia, é de enorme valia. Não estou falando em ser bonzinho, ou agradável; nada disso. Mas algo deve mover o seu “estômago”, seu instinto. Se não, não vale a pena.

AIC – Algumas pessoas questionam as técnicas usadas em cursos de preparação de atores. Qual a sua opinião?

H.Z.: Na minha concepção e nos trabalhos que tenho realizado ou de pessoas que acompanho, essa questão do preparador de atores é um pouco complicada. Isso por três motivos principais:

Em primeiro lugar, acredito que o ator seja o diamante bruto mais precioso para um filme. Nesse sentido, como você irá colocar um terceiro e não o próprio diretor, para lapidar esse mistério? Por mais que o diretor passe as diretrizes para o preparador, as características ou seja lá o que for, as coisas acontecem nos ensaios. Ou melhor, em pequenos instantes dentre de cada ensaio. E você vai deixar isso para outro? Se considerarmos a experiência como algo fundamental, mas experiência num sentido forte da palavra, como por exemplo colocado pelo filósofo Jorge Larossa, então usar um preparador significa tirar nossa capacidade de experimentar! Acredito que as possibilidades de potencialidades, cruzamentos etc., ficam bem prejudicadas.

Em segundo lugar, citaria uma cena que fiz com Jean-Claude Bernardet em meu último longa-metragem, “Amador”, de Cristiano Burlan, em que ele fala que a existência de preparadores de elenco é uma deficiência na formação dos diretores. O teatro é a morada do ator. Então, acho que qualquer diretor deveria passar por essa experiência. Mas não só isso. É preciso ter referências interessantes na música, nas artes plásticas, no cinema etc. Ser diretor é uma enorme dificuldade! Mas acho que quando lidamos com diretores assim, todo o trabalho é profundamente mais potente.

Por fim também acho que os atores tem sua parcela de culpa. Claro que se você é selecionado para um filme que tenha preparador de elenco, você vai se adaptar. Mas os atores são, muitas vezes, pessoas desinteressantes e desinteressadas. Existe um trabalho anterior a todo papel que é extremamente desgastante e obsessivo, que pensamos somente naquele filme ou peça, tudo se relaciona àquilo. Nesse sentido, você é o que você lê, o que você ouve, o que você fala, o que você come. Não dá para colocar o pé no esgoto e sair cheiroso! É preciso haver essa ética do cuidado de si para, quem sabe um dia, chegarmos a fazermos da nossa própria vida uma obra de arte, como dizia Nietzsche.

Com o diretor e amigo Cristiano Burlan em locação do filme "Sinfonia de Um Homem Só".

Com o diretor e amigo Cristiano Burlan em locação do filme “Sinfonia de Um Homem Só”.

AIC – Alguns defendem que o ator deve chegar para filmar em um estado de “virgindade”, de pureza, para que não seja influenciado por estereótipos do senso comum. Que quanto mais intuitivo e espontâneo for o trabalho do ator, melhor será. O que pensa sobre isso?

H.Z.: Acho que cada trabalho é um trabalho. E por isso que acredito que estar cercado de pessoas interessantes e potentes tem que ser um princípio básico! Não sei se existe regra – seja dessa virgindade, seja de uma longa preparação prévia. Cada filme, mas também cada estrutura de produção, muda muito a própria preparação e concepção do filme. E também é necessário levar em conta a própria pesquisa ou perspectiva, seja do diretor seja da linguagem. Bresson preferia o primeiro tipo, os não-atores. Mas se for fazer um filme do David Lynch, claro que a perspectiva é outra. Não podemos querer olhar um Pollack numa perspectiva de Velazques.

No trabalho que estamos desenvolvendo, eu e o Cristiano – estamos indo para nosso 4 longa-metragem juntos pela Bela filmes – esses papéis ficam cada vez mais confusos! Claro que no final ele é o diretor, mas temos um jeito de construir as coisas de maneira bem aberta. Obvio que no final existe alguém que manda! Mas em todas as etapas, participo ativamente das discussões. Quando não tenho esse modo de trabalhar, ou seja, com um roteiro pré-determinado e uma certa distância desse outro processo, depende um pouco das diretrizes dos diretores. Alguns sentam e te falam durante horas sobre o personagem, filme, etc. e você começa a sugerir coisas. Outros, pedem para fazer um trabalho mais longo, digamos assim, na prévia do filme. Mas em ambos os casos, o ator tem muito trabalho para fazer antes de chegar a hora da Ação.

AIC – O que um ator precisa saber para atuar no cinema?

H.Z.: Especificamente no cinema, acho que existe uma coisa fundamental que o Bergman chamava da dança entre o ator e a câmera. A câmera é um monstro e precisamos saber como domá-la, como fazer com que joguemos juntos. Além disso, no cinema, nossa relação com a voz (pela utilização de microfones) e com o corpo (enquadramentos etc.) é bem específica. Uma outra coisa diz respeito ao próprio processo fílmico: filmamos de cenas em ordens totalmente subordinadas à produção. Dessa maneira, precisamos desenvolver nossa capacidade para se adaptar a isso. Mas, novamente, acredito que um ator deve estar constantemente se experimentando, se desafiando em várias áreas e depois se adaptar as singularidades de cada situação.

AIC – Como os movimentos de câmera e os ângulos escolhidos pelo diretor influenciam na performance do ator?

H.Z.: Acho que a própria estrutura de produção já impacta nessa questão. Se filmamos para 5 câmeras ou para 1, faz toda diferença. Precisamos sempre, na medida do possível, saber qual enquadramento, movimento etc., para nos adaptarmos a cada situação e, quem sabe, podermos contribuir no desenho da cena, do filme. Ainda mais no cinema, onde selecionamos para onde e como deve seguir o olhar do espectador. Caso tenhamos apenas uma câmera, por exemplo, muito próxima de você, podemos trazer as palavras para perto do peito ou do estômago. Se for em uma cena aberta, no meio da cidade, talvez seja necessário “aumentar” um pouco gesto e volumes. Mas, no final das contas, a situação vai nos dizer do que precisa e, é claro, um diretor que sabe o que faz – o que não significa não experimente, não erre, não faça por instinto.