O BOOM das Séries Brasileiras e o Novo Curso de Roteiro para Série de TV da AIC

O telespectador brasileiro nunca teve tantas boas opções de séries de TV como nos dias de hoje. Basta ligar a TV e zapear pelos canais

surtadas na yoga

Cena da série “Surtadas na Yoga”, do canal GNT, que estreou a segunda temporada em abril. Foto: divulgação GNT.

mais conhecidos. No GNT, por exemplo, três séries brasileiras são exibidas semanalmente. Na Rede Globo são seis. Segundo dados da Ancine – Agencia Nacional de Cinema, o número de obras brasileiras veiculadas em alguns dos principais canais de TV por assinatura foi quadriplicado no ano passado e, o principal motivo desse crescimento é a Lei da TV Paga.

Ricardo Tiezzi – roteirista da TV Globo e professor do novo curso de Roteiro para Série de TV da Academia Internacional de Cinema (AIC) afirma, “o motivo principal é mesmo a lei, que gerou a necessidade de as emissoras colocarem conteúdo ficcional no ar. A lei de fato modificou significativamente a quantidade de produção. Um outro motivo é que o formato de série se consolida como uma possibilidade dramatúrgica forte. É um formato que tem respeitabilidade, devido à qualidade das séries estrangeiras, e que estabelece com o espectador um tipo de relação diferente da novela, por exemplo. Por ter um tempo menor e uma narrativa mais compacta, gera um tipo de relação mais próxima”.

Um Pouco de História

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Armação Ilimitada, série de sucesso da rede Globo, que fazia referências à cultura pop. Foto: divulgação Rede Globo

As séries de hoje são bem diferentes das de antigamente. Quem não lembra com saudosismo de personagens famosos, como Zelda, Juba e Lula de “Armação Ilimitada”, que ficou no ar de 1985 a 1988, na TV Globo? Com linguagem moderna (para a época) e muito humor, a série girava em torno do triangulo amoroso dos personagens.

Já a primeira série brasileira foi ao ar em 1961, na TV Tupi. “O Vigilante Rodoviário” contava a história de um policial, sempre acompanhado de seu cão, que lutava contra os ladrões das rodovias paulistas. Todo gravado em película, a série teve 38 capítulos e foi muito reprisado na década de 1970.

Depois veio “Alô, Doçura”, a primeira sitcom brasileira. Em 1978 foi ao ar “Malu, Mulher” com temas polêmicos sobre a emancipação feminina, como divórcio, aborto e orgasmo. Entre outras séries famosas como: “Carga Pesada”, “Mulher”, “A Grande Família”, “Os Normais” e “A Diarista”.

Para saber mais acesse, clique aqui e leia o especial do feito pelo jornal Estadão sobre as 10 melhores séries brasileiras de todos os tempos.

Ricardo Tiezzi e o Intensivo de Férias de Roteiro para Série de TV

Escritor, professor e roteirista da TV Globo, Ricardo Tiezzi acabou de entregar os últimos capítulos da temporada de “Malhação”. Também roteirizou a comédia “Superpai”, que deve estrear nos cinemas no segundo semestre, produzido pela Querosene filmes, com Danton Mello como protagonista. Já escreveu dezenas de séries e programas, entre eles estão: “Café Filosófico” (Cultura), “A Vida de Rafinha Bastos” (Fox) e “Julie e os Fantasmas” (Band / Nickelodeon). Também tem dois livros de crônicas: “O Primo de Deus” e o romance policial “O Sorriso da Morte” e promete escrever o terceiro ainda este ano.

Tiezzi, que já coordena o curso de Roteiro para TV da AIC, também está à frente do novo curso de Série para TV. O curso tem como

Ricardo Tiezzi

O roteirista da TV Globo e professor da AIC Ricardo Tiezzi.

objetivo ensinar a arte e a técnica desse tipo de narrativa audiovisual e a compreensão da linguagem específica desse formato. O curso explora, de forma prática e teórica, quatro tópicos centrais da narrativa seriada: fundamentos – os princípios da narrativa audiovisual; personagem – a alma do seriado; estrutura – de episódio e de temporada; cena e diálogo – a sintonia fina.

Confira a entrevista que Ricardo respondeu para a comunicação da AIC e entenda um pouco mais sobre roteiro para seriado.

AIC –  Quais são as diferenças básicas de roteiro para novela e para série de TV?

Ricardo Tiezzi: A novela e a série diferem na extensão, o que impacta diretamente na narrativa. A série tende à concentração, a uma espécie de narrativa sob permanente tensão. Assim, muitas vezes evitam-se cenas de preparação e cenas que comentam ou repercutem os momentos fortes. A novela, por outro lado, busca a distensão. Cada momento forte é acompanhado de cenas anteriores que os preparam e cenas posteriores que os comentam.

AIC – O que faz uma série de TV ter sucesso? O que prende o espectador e faz com que ele assista o próximo episódio?

R.T.: Sei que corro o risco de uma resposta vaga, mas não há como fugir, pois é uma resposta velha e permanente. Que é: o que prende o espectador é uma boa história bem contada. Um outro desafio é a série superar um paradoxo corrente em televisão que consiste em “fazer o mesmo só que diferente”. Significa surpreender o público, oferecer algo que ele quer mas às vezes nem sabe que quer, mas ao mesmo tempo trabalhar com um repertório narrativo já conhecido. Algo como dar dois passos à frente mas um passo de recuo.

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Cena de “Malhação”, que vai ao ar nos próximos dias.
Foto: Carol Caminha / TV Globo.

AIC – Como se especializou na área de TV/ séries?

R.T.: Minha formação é em jornalismo. Depois, quando tive a intenção de virar roteirista, a dedicação integral foi em formação. A especialização continua nas séries e programas de TV escritos, mesmo os que não foram ao ar. Mesmo assim, ainda que trabalhando na área há um bom tempo, a formação continua. Meu mestrado, por exemplo, é na área de narrativa e religião.

AIC – Como funciona uma sala de escritores?

R.T.: A sala dos escritores é o lugar onde os escritores se reúnem para criar uma série ou, pelo menos, falhar em comunhão. Um fator determinante do sucesso das séries é o seu método de criação, que consegue, pela criação em grupo, exponenciar o potencial de cada escritor.

AIC – Conte um pouco sobre o novo curso da AIC – Roteiro para Séries de TV.

R.T.: O curso pretende ser um laboratório de uma sala de escritores. No entanto, é preciso ter claro que a criação sem um sólido repertório teórico e analítico – de dramaturgia, de narrativa, de estrutura, personagem, técnica e tudo o mais – não consegue ir muito longe. Por isso, os momentos de criação de um projeto de série serão acompanhados por aulas expositivas.