Cine Futuro, Minotauros e Bolhas de Sabão – Mariana Rondón na AIC

Genética, Minotauros, robótica e muita poética. Assim começou a 9ª Semana de Orientação “O que tudo isso tem a ver com

Mariana Rondón falou sobre Cine Futuro, arte e contou sobre seus filmes.

Mariana Rondón, no estúdio da AIC, falou sobre Cine Futuro, arte e contou sobre seus filmes. Foto: Alessandra Haro

cinema? Eu já chego lá”, disse a cineasta e artista plástica venezuelana Mariana Rondón, palestrante do primeiro dia do evento. Com seu espanhol manso e suas “pantalones” coloridas, Mariana chegou quase tímida e aos poucos, sua fala encheu a sala de poesia e bolhas de sabão.

Llegaste com la brisa

Mariana contou sobre si e seus projetos como artista plástica. “Sempre fui fascinada por genética e robôs, um dia um investigador científico me contou que existem laboratórios genéticos clandestinos onde tentam recriar todo tipo de seres, até Minotauros. Fiquei muito empolgada e pensei, eles sim fazem arte”, contou rindo. Daí surgiu a ideia da instalação “Llegaste com la brisa” (Você veio com a Brisa), um projeto de pesquisa sobre o imaginário genético. “Graças à robótica e a imagem em movimento digital, é possível gerar uma fronteira para viver o sonho, o espaço-tempo virtual… Os robôs são capazes de criar constantemente, então, inventamos uma máquina que fabrica bolhas de sabão gigantes. As bolhas são injetadas com vapor, o que as torna capazes de refletir imagens de um projetor. As imagens projetadas sobre as bolhas são o produto de combinações genéticas entre seres humanos e animais, seres transgênicos”, conta Mariana antes de exibir o vídeo mostrando um pouco sobre a exposição.

“Llegaste con la Brisa”- You Came with the Breeze” (2002- 2011) from Sudaca Films on Vimeo.

Cine Futuro

Assinando o poster do seu filme "Pelo Malo". Foto: Alessandra Haro

Assinando o poster do seu filme “Pelo Malo”. Foto: Alessandra Haro

A partir dessas novas possibilidades de exibição de imagens e sons, como no caso da instalação de Mariana, cria-se uma reflexão sobre a forma como o cinema e feito e visto hoje, conta. “Com as novas tecnologias, um novo movimento está surgindo, chamado Cine Futuro, que diz que em breve o cinema não será apenas uma experiência audiovisual e sim multidimensional e sensorial. Hoje é possível criar espaços diferentes, interações biológicas, sensações e misturar tudo isso com o cinema, com arte, com ciência e a partir daí, criar um novo universo”.

A artista e cineasta diz que não sabe se isso realmente acontecerá. Mas diz que é algo para se pensar. Mas, por outro lado, acha que não se pode abandonar o orgânico, a essência das coisas. “Com a tecnologia qualquer um pode fazer um filme, até com o celular. Então, para fazer filmes não se pode esquecer da poética, da imaginação, a tecnologia não pode roubar o que podemos inventar, as imagens que podemos criar”.

Os acidentes de percurso

Quando a diretora e roteirista começou a contar sobre seus filmes, a plateia ficou ainda mais concentrada. Ela falou sobre formas de filmar e dirigir. “Filmagens estão repletas de possibilidades de acidentes. Filme é como a vida. Precisamos da ideia poderosa, mas não podemos querer controlar tudo. Aceitar os acidentes que ocorrem durante o percurso podem trazer imagens e cenas muito mais belas e histórias muito mais verdadeiras. Quando filmei “Postales de Leningrado” primeiro me apeguei a ideia da sátira, da comédia, só com o tempo percebi o que realmente era importante contar, a história precisava ser sobre o medo que eu sentia, o medo de perder meus pais guerrilheiros”.

Mariana também trouxe curiosidade sobre seu último trabalho, exibido ontem na AIC. “Cabelo Ruim”, que tem estreia comercial prevista para abril, conta a história de Junior, um menino de nove anos que decide alisar seu cabelo para sua foto de formatura, com a intenção de ficar parecido com um cantor famoso. “O filme é uma pequena história familiar, sobre a iniciação da vida de uma criança e sua difícil jornada marcada pela intolerância”, conta.

Plateia concentrada escutando a diretora e artista plástica.

Plateia concentrada escutando a diretora e artista plástica. Foto Alessandra Haro

Ser diretor de cinema

Pra finalizar o bate-papo, um aluno pergunta quais as principais características de um bom diretor. Mariana pensa e sente o peso da responsabilidade de sua resposta. Respira e diz: “para ser diretor de cinema é preciso saber buscar o silêncio, apagar a própria mente, conseguir desaparecer e ver o outro, enxergar o ator, a equipe. É buscar o dentro e o fora”. E, o primeiro dia da Semana de Orientação terminou assim, com reflexão e aplausos em pé.