José Luiz Villamarim fala sobre Redemoinho, sua estreia no cinema

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Exibição exclusiva de Redemoinho ontem, na AIC, seguida de bate-papo com o diretor Villamarim

Mesmo com a agenda lotada por conta da estreia de “Redemoinho” nos cinemas, José Luiz Villamarim chegou animado na Academia Internacional de Cinema (AIC) do Rio de Janeiro. Com o estúdio cheio e alunos e convidados sentados pertinho do diretor, a conversa rolou com aquele tom informal já típico da Semana de Orientação – evento que acontece anualmente na AIC e traz cineastas para um ciclo de bate-papos e exibição de filmes.

Villamarim contou sobre sua carreira, projetos e claro, sobre seu primeiro longa que estreou no último dia 9 nos cinemas. “Minha paixão pelo cinema vem desde os meus 15 anos, antes do desejo de trabalhar com TV. Um certo dia, em Belo Horizonte, levado por meu pai, que era fã de Tom & Jerry, fomos a uma matinê de domingo. Só que ao invés de passar o desenho animado, por um problema na cópia, eles exibiram “O Enigma de Kaspar Hauser”, do Werner Herzog. Aquilo foi uma revelação que me deixou perturbado e curioso pelo cinema como expressão artística. A partir daí comecei a frequentar cineclubes e trabalhar com videoarte, mas a vontade mesmo era tratar dos dramas humanas através das imagens. Foi aí que surgiu um contato na Globo onde fui apresentado ao diretor Dennis Carvalho, que me convidou para fazer a minissérie “Anos Rebeldes”.

REDEMOINHO, DIRETOR E PARCERIAS DE TRABALHO

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José Luiz Villamarim, ontem, no estúdio da AIC, conversando com a platéia que encheu o estúdio

Com mais de 18 novelas no currículo, diretor das séries “Nada Será Como Antes” e “Justiça”, José Luiz Villamarim retoma as parcerias dos sucessos “O Canto da Sereia”, “Amores Roubados” e “O Rebu” com o roteirista George Moura e o diretor de fotografia Walter Carvalho. “Redemoinho”, longa de estreia de Villamarim, ganhou o Prêmio Especial do Júri Oficial e o de Melhor Ator para Julio Andrade no Festival do Rio 2016. Também esteve presente no Festival de Havana, na 40ª Mostra Internacional de Cinema, em São Paulo e na 10ª Mostra de Cinema de Belo Horizonte.

O filme, exibido antes do bate-papo, é sobre o reencontro dos grandes amigos de infância Luzimar (Irandhir Santos) e Gildo (Julio Andrade), que cresceram juntos em Cataguases, no interior de Minas Gerais, mas ficaram muitos anos afastados. Luzimar trabalha em uma fábrica de tecelagem e nunca saiu de sua cidade. Gildo mora em São Paulo e acredita ter se tornado um homem mais bem-sucedido. Na véspera do Natal, Gildo chega a Cataguases para ajudar a mãe, Dona Marta (Cássia Kis), a vender a casa da família. Já Luzimar, casado com Toninha (Dira Paes), por quem é apaixonado, tenta guardar de todos um segredo. Mas a volta do velho amigo pode mudar seus planos e lançá-lo em um arriscado acerto de contas.

“Redemoinho fala do conflito e da angustiante dúvida sobre quem fez a melhor escolha: aquele que partiu da cidade onde nasceu ou aquele que escolheu ficar”, define Villamarim. “Gildo sai de Cataguases, mas Cataguases não sai de dentro dele. Também é uma história sobre a amizade e a implosão dos laços de afeto familiares, que traz uma série de questões sobre esse país em transe no qual vivemos nos dias de hoje. ”

Rodado ao longo de dois meses na cidade de Cataguases, na Zona da Mata mineira, o filme é baseado no livro “Inferno Provisório – O Mundo Inimigo” Vol. II, do escritor mineiro Luiz Ruffato.

“O processo de adaptação durou uns dez anos, porque minha carreira avançou na Globo e nunca sobrava muito tempo. Mas nem eu, nem a Vânia (produtora do filme) desistimos durante todo esse tempo. Até que eu me vi prestes a completar 50 anos, e pensei que estava mais do que na hora de fazer um filme”, conta.

O TREM

Questionado sobre o trem que aparece nas cenas do filme e aparentemente “vai crescendo” na história, Villamarim conta que quando conheceu a região onde seriam as filmagens, pensou que a história não poderia ser contada sem o trem.

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Villamarim contou sobre o filme que é sobre o reencontro dos grandes amigos de infância Luzimar (Irandhir Santos) e Gildo (Julio Andrade), que cresceram juntos em Cataguases, no interior de Minas Gerais, mas ficaram muitos anos afastados.

“A locomotiva representa, de alguma forma, um ponto de fuga, a possibilidade da partida, e também com ele sempre volta a passar no mesmo lugar, ele tem um caráter de redemoinho, algo que gira em torno do seu próprio eixo, sem sair do lugar e ao mesmo tempo tragando tudo. O trilho traz as linhas paralelas que contaminaram os enquadramentos. E o fato de o trem passar tão perto da casa dos personagens e de forma tão estridente, passou a ser uma trilha sonora do filme. A linha do trem traz a ideia dos personagens, que querem sair daquele lugar, sair daquele inferno provisório no qual eles estão condenados a viver. A simbologia do trem ganhou uma proporção tal, que cheguei a dizer à produção: se não tiver trem, não tem filme. ”

TV VERSUS CINEMA – AS DIFERENÇAS

Questionado sobre as diferenças da TV e do Cinema, Villamarim citou o livro “Esculpir o Tempo”, de Tarkoviski e recomendou para que todos ali lessem a obra prima do autor. “No cinema a gente tem mais tempo, consegue lapidar, esculpir, tirar os excessos. Cinema é sintaxe. A televisão é repetição, a gente não tem tempo, termina e vai para o ar”, conta.

O papo ainda passou por muitos temas diferentes, como políticas públicas, ANCINE, mão de obra qualificada para o audiovisual, o trabalho com o ator, entre tantos outros, que só quem esteve lá para participar pode ouvir tudo.

Terminou com um conselho para quem está começando. “Sejam sempre inseguros, a insegurança é ótima. A certeza nunca deve ser bem-vinda. Você precisa ser assertivo, saber o que quer e ao mesmo tempo escutar os ‘presentes’ que a equipe traz”.

*Fotos Ricardo Aleixo