George Stoney parte

O cineasta e professor George Stoney fez a passagem no dia 12 de julho, aos 96 anos, boots on (“calçando botas”, ou seja, trabalhando até o fim). Stoney é a grande referência no vídeo e filme sociais, cujo esforço permanente e contínuo resultou, entre outras coisas no sistema de TVs de acesso público nos EUA, influente em todo o mundo, inclusive no Brasil.

Seus documentários foram impactaram profundamente a comunidade cinematográfica nos Estados Unidos, promovendo o sujeito do documentário social (pobres, negros, minorias, crianças, excluídos em geral) em protagonistas da própria imagem ao fomentar as condições da auto-representação. Com isso seu trabalho dialogava com antropólogos, militantes políticos, trabalhadores sociais, professores, enfim, quaisquer categorias e profissionais que pudessem favorecer a mudança social.

George Stoney era um exemplo de vida, de amizade, de fidelidade, de combate à opressão, e de dedicação ao próximo. Se uma fita VHS fosse enviada a ele, o remetente podia ter certeza eu seria visto, e sua correspondência respondida. Fazia de seu pequeno apartamento alugado no West Village, em Nova Iorque, um ponto de encontro e hospedagem “do que havia de melhor nos Estados Unidos” nas palavras sua colaboradora e ex-aluna Judith Helfant. A juventude universitária o prestigiava como referência de militância política desde a década de 1930.

Foi dedicado professor da NYU desde 1970. Apreciador da técnica, jamais a preferia ao seu impacto social, da eficácia política à eticidade da relação entre equipe e sujeitos em cena. Foi nesse contexto que se aproximou de produtores brasileiros a partir de 1984, quando veio mostrar trabalhos que admirava e buscar inspiração no processo de democratização que vigorava, e se refletia no vigor das produções audiovisuais (Olhar Eletrônico, ABVP, entre outros coletivos). Fez amigos inseparáveis, entre eles o chefe Krahô Aleixo Po-Hi, que hospedou nos Estados Unidos.

Conheceu Paulo Freire com quem estabeleceu uma profunda identificação. George Stoney poderia ser considerado um “Paulo Freire” ao audiovisual, promovendo a alfabetização audiovisual no seu sentido crítico, formador de visão de mundo, com ação transformadora. Iniciou um projeto de documentação da repercussão de sua obra, que se transformou com o falecimento de Freire e que agora se encontra em fase de finalização.

George voltou ao Brasil mais de uma dúzia de vezes e promoveu novos vínculos e agrupamentos ativos no ensino e na produção audiovisual. A própria direção da AIC ,de certa maneira, é tributárias das aproximações que fomentava por onde passava. Stoney deu palestra na AIC em sua última estada no Brasil, em 2008.