Cativas Presas pelo Coração estreia nesta quinta nos cinemas

Cativas_cartaz_webHistórias de amor, como tantas outras, mas, vividas entre mulheres e presidiários. O documentário “Cativas – Presas pelo Coração”, dirigido, roteirizado e produzido pela professora Joana Nin, que coordena o Curso de Produção Executiva da Academia Internacional de Cinema (AIC) do Rio de Janeiro, Curitiba no dia 13/08 e no Rio de Janeiro no dia 21/8, no Estação e em São Paulo dia 10/9, no Cine Belas Artes (para acompanhar a programação nos cinemas acesse a página do filme no Facebook).

A história é sobre sete mulheres livres que se mantêm cativas em nome do amor. Apaixonadas por presidiários, elas vivem as limitações do relacionamento e a esperança de um dia constituir uma família do lado de fora. O filme investiga como são estes casamentos, o que eles são capazes de construir ou destruir na vida delas. O universo destas mulheres é visto por meio de relatos emocionados, cartas carinhosamente decoradas e um acesso privilegiado à intimidade dos casais.

Rodado após 12 anos de pesquisa sobre as mulheres de internos do maior complexo penal do Estado do Paraná, em Piraquara, a 40 km de Curitiba, o trabalho começou com a realização de uma reportagem durante uma grande e violenta rebelião ocorrida em 2001. Posteriormente, um grupo de mulheres entrevistadas entre 2003 e 2004 deu origem ao curta-metragem “Visita Íntima”, lançado em 2005. O filme recebeu 21 prêmios, inclusive o de melhor curta-metragem no É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários e um Kikito em Gramado – Prêmio Especial do Júri.

“O lançamento nas salas de cinema é fruto de muita perseverança minha e da distribuidora Moro Filmes, com o apoio de exibidores compreensivos e generosos. Defendo que a tela grande é sim local para o documentário – assim como para todo o nosso cinema brasileiro.  Precisa haver espaço para estes filmes porque eles falam de nós. Eles tem um público, é necessário compreender suas especificidades e trabalhar o lançamento pensando nelas. Lamento sinceramente não ter conseguido sensibilizar aqueles que poderiam ter nos apoiado financeiramente para que nossa estreia ocorresse em melhores condições, acho deplorável esse preconceito contra o documentário e contra o filme de temática social. Mas estamos aí para quem quiser conferir o resultado. Fiz este filme com dinheiro subsidiado pela Lei do Audiovisual e ele é para o público, não para ficar guardado na prateleira. A TV é destino certo também, com muita honra exibiremos no GNT, nosso coprodutor, logo após a sequência de salas de cinema que nos acolheram. Recebemos pedidos de diversos estados, do Rio Grande do Sul a Tocantins, por enquanto, estreando no Paraná, passando pelo Rio de janeiro, São Paulo e Floripa”, diz Joana.

O filme recebeu menção honrosa na Première Brasil do Festival do Rio e participou Do festival de Estocolomo (Seleção oficial) e da Première Brasil Berlim.

Entrevista com Joana Nin – A Diretora

Documentarista e produtora executiva responsável pela coordenação dos projetos da Sambaqui Cultural, Joana Nin fez o roteiro, a direção e a produção executiva de Cativas.

Documentarista e produtora executiva responsável pela coordenação dos projetos da Sambaqui Cultural, Joana Nin fez o roteiro, a direção e a produção executiva de Cativas.

Documentarista e produtora executiva responsável pela coordenação dos projetos da Sambaqui Cultural, Joana é diretora dos curtas “Visita Íntima” (2005) e “À Luz do Dia” (2013). Foi diretora assistente do longa-metragem documentário “Hércules 56” (2007), de Silvio Da-Rin. Trabalhou na produção local (Curitiba) no longa-metragem “Mulheres do Brasil”, de Malu de Martino e “Cativas” é seu primeiro longa-metragem. Conheça um pouco mais sobre a produção, a escolha das personagens, os desafios e a montagem feita por Joana Berg (ex-montadora de Eduardo Coutinho).

AIC – O que guia o filme são as cartas de amor trocadas entre os presos e suas companheiras, carinhosamente decoradas. Como você teve acesso à correspondência entre os presidiários e suas namoradas, e como percebeu que isso poderia ser o eixo do filme?

Joana Nin: Quando comecei esta pesquisa, em 2001, a primeira coisa que me chamou a atenção foram as cartas. Todas as mulheres tinham malas, caixas, com centenas de cartas. E elas tinham semelhança entre si, em alguns momentos pareciam ter sido desenhadas pela mesma pessoa, ou por uma espécie de ‘oficina de arte’, onde todos aprenderam pela mesma técnica. Elas são a principal ferramenta de conquista e a garantia do vínculo entre os casais, simplesmente porque não há muitas opções. As penitenciárias vivem à margem do mundo digital.

A correspondência que está exposta no filme foi toda cedida pelos personagens, homens e mulheres. Eles emprestaram cartas para serem escaneadas. Foram mais de 150, além daquelas filmadas enquanto eram lidas e relidas pelas mulheres nas entrevistas. A maior dificuldade foi o medo que todas as pessoas tiveram de emprestar este material e não recebê-lo de volta. Todos os desenhos utilizados nas artes gráficas do filme foram extraídos e adaptados da decoração das cartas reais, até mesmo o tipo utilizado no título.  E todas as cartas foram devolvidas.

AIC – Como se deu a escolha das personagens?

Cartas trocadas entre os presos e suas companheiras.

Cartas trocadas entre os presos e suas companheiras.

J.N.: Em 12 anos frequentando a porta da mesma penitenciária para fins de pesquisa, pude identificar claramente o universo, entender sua lógica, perceber seu funcionamento. Conversando com as pessoas, especialmente com as mulheres dos presos, mas também com agentes penitenciários e assistentes sociais, entendi os principais modelos de comportamento. Eu quis que o filme trouxesse esses ‘tipos’, embora seja difícil classificar pessoas por conta da enorme diversidade entre elas. Mas como eu estava fazendo um filme, há padrões que se repetem e isso poderia ser aproveitado cinematograficamente. Os principais perfis foram: uma noiva que tivesse a real intenção de se casar dentro da penitenciária e se dispusesse a fazer isso dentro do filme; uma mulher que visitasse o marido há muitos anos, ou que tivesse longa história de vínculo com a cadeia, sempre na condição de visitante de companheiro; e uma mulher que estivesse indo pela primeira vez numa penitenciária visitar um preso pelo qual estivesse apaixonada. Além dessas descrições prévias, pedi que ela procurasse todas as 17 personagens que entrevistamos em 2004 para o curta Visita Íntima para saber o que se passou na vida delas e avaliarmos a possibilidade de incluirmos suas histórias no longa. Com poucas nós ainda mantínhamos contato. Uma delas está no longa, a Cida. Encontrá-la foi uma verdadeira operação de investigação e busca.

Junto com os perfis predefinidos, a pesquisa nos levou a outras histórias ainda mais surpreendentes do que nossa imaginação poderia supor, como a da mulher que aos 36 anos começou a namorar um vizinho de 14 e já está com ele há 15 anos, convivendo com períodos de prisão e liberdade alternados. Aos poucos o filme foi se desenhando. Optamos por investir mais tempo nas personagens escolhidas e não pulverizar com várias entrevistas aleatórias. Para se ter uma ideia, das 13 personagens documentadas, sete estão no corte final como destaques e duas outras têm pequenas participações.

AIC – Que desafios você enfrentou na filmagem?

"A cena mais difícil de filmar foi o pátio de visitas", conta Joana.

“A cena mais difícil de filmar foi o pátio de visitas”, conta Joana.

J.N.: Quais as maiores dificuldades? Na semana em que começou a pré-produção, descobrimos que teríamos que começar a filmar quase imediatamente para não perder cenas importantes que gostaríamos de ter.

Tudo no filme é real, mas a nossa estratégia, em alguns casos, foi típica de filmes de ficção. Como era um universo totalmente mapeado e com uma rotina estabelecida – as visitas semanais e a troca de cartas –, muitas coisas podiam ser previstas e as filmagens planejadas. Não achei necessário formalizar um roteiro com a descrição das cenas, mas combinei cada uma com a equipe antes de entrarmos no set, da melhor forma possível em cada caso.

A cena mais difícil de filmar foi o pátio de visitas. Primeiro porque não teríamos bom resultado filmando uma visita normal, nos finais de semana, quando há sempre uma infinidade de pessoas que não querem aparecer, gente que tem medo do preconceito, do estigma, de perder o emprego etc. Ou que simplesmente não quer ser personagem de filme. Era necessário convencer a direção da penitenciária sobre a importância de ser uma visita exclusiva para a filmagem, ou seja, uma visita extra. Isso só poderia ser feito em um feriado. Tínhamos três câmeras neste dia, além de oito microfones. E foi um dia tenso, muito tenso. O resultado foram nove horas de imagens, a maior parte sem sincronia entre som e imagem. Foi difícil lidar com esse material na edição, mas ele me parece fundamental para o filme.

AIC – De que maneira o filme pode contribuir para humanizar a visão dessas famílias no contexto do sistema penal?

A grávida Camila, que ficou grávida em uma visita íntima e casou-se com o namorado presidiário menos de um mês depois do parto. Entre as muitas cartas, ela guarda também os calendários coloridos que ele faz para que ela não se esqueça dos dias de visita.

A grávida Camila, que ficou grávida em uma visita íntima e casou-se com o namorado presidiário menos de um mês depois do parto. Entre as muitas cartas, ela guarda também os calendários coloridos que ele faz para que ela não se esqueça dos dias de visita.

J.N.: Eu acho um enorme desperdício o sistema penitenciário brasileiro ignorar a importância das famílias. Porque politicamente, estruturalmente, elas são ignoradas, ou pior, consideradas ‘cúmplices’.  O Brasil tem 500 mil presidiários, 93% deles são homens. Os índices de reincidência não são conhecidos com exatidão, mas arrisco dizer que são superiores a 70%, ou até bem mais do que isso. Ou seja, o sistema é falho, não regenera ninguém, não é nada transformador da realidade, se é que não seja um fator de agravamento da situação. A lógica precisa mudar. É muito importante pensar em capacitação profissional, trabalho e educação dentro das unidades, mas também estudar de que forma a família pode atuar como parceira.

O ex-presidiário só tem reais chances de não voltar para o crime se tiver trabalho e afeto quando sair da cadeia. E mesmo assim, vai ter que lutar muito contra o estigma, o preconceito, a revolta das pessoas. A necessidade do trabalho já foi razoavelmente assimilada pelo sistema, mas percebo que esta conversa sobre ‘afeto’ ainda provoca mais reações contrárias do que adesões. O que acontece com uma pessoa que ficou fora da vida social por longos anos, que não tem uma profissão, ou está desatualizado de tudo, e ainda por cima não tem onde morar e o que comer quando sai da cadeia? Essa pessoa volta para o crime. Volta a conviver com antigos amigos, vai para o único caminho que parece possível. Já aquele que tem esposa e filhos, em geral tem para onde ir, condições básicas de sobrevivência e algum estímulo para mudar de vida. Não que ter família signifique ‘regeneração’, longe disso. Mas é um fator importante nesta complexa questão. Eu espero que o filme provoque uma real reflexão sobre quem é a família do preso, especialmente, a companheira. Seria importante pensar essa questão a fundo dentro do sistema penitenciário. Eu gostaria de que o filme ajudasse nisso.

AIC – Como foi o processo de montagem junto com Jordana Berg?

Kamila, outra personagem do documentário. Seu companheiro já estava preso quando ela o conheceu. Ele ainda vai cumprir 17 anos de pena. Aos 21, ela se prepara para sua primeira visita íntima, após cinco meses sem vê-lo.

Kamila, outra personagem do documentário. Seu companheiro já estava preso quando ela o conheceu. Ele ainda vai cumprir 17 anos de pena. Aos 21, ela se prepara para sua primeira visita íntima, após cinco meses sem vê-lo.

J.N.: A Jordana montou o meu curta Visita Íntima em 2004, nós já conhecíamos uma sintonia que só se confirmou agora. Eu gosto de trabalhar com ela, ouço muito o que ela diz e considero. Eu acho fundamental trabalhar ao lado do montador – confiar o filme, mas manter-se perto e criando em conjunto nesta fase do trabalho. Sem isso o documentário perde muito como filme. Porque todo diretor tem suas vaidades e uma característica paixão pelo material, ou pelo que acha que existe de extraordinário nele. Precisa de alguém que o ponha com os pés no chão, que lhe ajude a enxergar o que realmente é melhor, o que vai contar a história do seu filme de uma forma que as outras pessoas queiram ver. A Jordana é uma montadora habilidosa e trabalha administrando ânimos com carinho, isso é muito importante. Ela também ficou ‘grávida’ do filme junto comigo e foi fundamental para transformar 50 horas de material bruto nos únicos 75 minutos possíveis, na ordem exata.

Algumas cenas foram criadas na montagem. Desde o começo eu disse a ela que isso seria possível – abrir a câmera novamente para filmar algo tópico que julgássemos importante. Assim foram feitas três cenas, uma para contextualizar melhor uma das personagens, uma para mostrar um determinado lugar e outra para trazer para o filme a visita íntima, que era algo que eu gostaria de ter feito quando estávamos com toda a equipe filmando dentro da penitenciária, mas que não tinha sido possível. Esta cena foi complicada de fazer e tensa de editar. Uma cena de sexo num documentário é algo não esperado, mas no caso considero não só justificável, como também o reflexo do amplo acesso que tive a tudo o que dizia respeito aos relacionamentos amorosos documentados. Neste quesito, não há nada mais íntimo do que filmar um casal na cama. A Jordana entendeu meu desejo e me ajudou a fazer uma cena bonita e totalmente encaixada na engrenagem do filme, sem supervalorizar, nem banalizar.

*Fotos Divulgação

Assista ao Trailer:

Cativas – Presas pelo Coração TRAILER OFICIAL from Sambaqui Cultural on Vimeo.