Arthur e o Infinito é exibido em diversas cidades e ganha medalha de mérito no Rio de Janeiro

cena do filme arthur e o infinito, de julia rufino

A atriz Maria Tuca Fanchin e o ator Erich Schon em cena do filme.

Falar sobre o autismo é tarefa que exige propriedade. Rodar um filme sobre o tema, ensaiar com os atores por três meses – sendo que o personagem principal é um menino de apenas seis anos, e ter o filme exibido e bem aceito em mais de 27 cidades, é tarefa que além de propriedade, exige grandeza. Afinal, em um mundo pós-moderno, tão voltado ao consumo e ao individualismo, é cada vez menor o número de pessoas que se envolvem em projetos como este.

A compaixão do amor materno incondicional que serve de exemplo de como devemos cuidar uns dos outros é o pano de fundo da ficção “Arthur e o Infinito”, filme de conclusão de curso da ex-aluna Julia Rufino, que fez o FILMWORKS, o Curso Técnico em Direção Cinematográfica da Academia Internacional de Cinema (AIC).

Os personagens centrais são Marina e César, pais de Sofia, de 10 anos, e Arthur, de 6. Quando Arthur tinha um ano e meio de idade, começou a apresentar um comportamento diferente das outras crianças, tinha dificuldades em se comunicar. Parecia não ouvir quando seus pais o chamavam e quase não demonstrava contato visual com seus interlocutores. Preocupados, os pais procuraram médicos e especialistas numa longa busca que só terminou quando Arthur completou seis anos e foi diagnosticado como autista. Ao passar por momentos difíceis e desafiadores, a mãe Marina coloca em questão a sua capacidade de lidar com o filho e todos os problemas decorrentes dessa situação. “A partir do diagnóstico o filme tem como foco a relação da mãe com o menino e dos caminhos que ela irá traçar para entendê-lo e lidar melhor com ele. Naturalmente, essa contexto acaba interferindo na família como um todo. A filha mais velha se vê deslocada da família por não receber a atenção que gostaria da mãe. Já o pai, acaba se afastando, por não saber mais como lidar com a situação.”, conta Julia, que além de diretora, também é roteirista do filme.

Medalha de Mérito Autista

Em abril, Julia recebeu a Medalha de Mérito Autista, concedida pela Fundação Mundo Azul, uma organização criada por um grupo de

Medalha de Mérito Autista, concedida pela Fundação Mundo Azul

Medalha de Mérito Autista, concedida pela Fundação Mundo Azul

pais com interesse em divulgar o tema. “Durante o processo de pesquisa, tive muito contato com os pais dessa fundação. Eles me fizeram o convite para exibir uma chamada do filme no Cristo Redentor, no evento do Dia Mundial de Conscientização ao Autismo. Nesse mesmo evento entregaram a medalha para mim e para outras pessoas que também fizeram algum trabalho, ou que de alguma forma estão lutando pela causa”, conta Julia.

Além da medalha, o filme já foi exibido em mais de 27 cidades do Brasil e não para de receber convites de instituições, eventos, congressos, fóruns e encontros sobre autismo. “O filme já foi exibido em grandes capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Belém e em dezembro será exibido em Brasília. O filme também já ganhou prêmio de Melhor Atriz, pela atuação de Maria Tuca Fanchin, no Filmworks Film Festival e foi selecionado para o Cine Mube Vitrine Independente. “Para alguém que está começando a carreira é bem gratificante ver um primeiro trabalho ser tão bem aceito e elogiado. Das exibições que tiveram até então, em todas elas a resposta foi muito positiva e até muito similar. Grande parte do público que assistiu ao filme eram mães, pais e familiares de crianças autistas, profissionais da área da saúde e da educação e em todas as vezes, sem exceção, houve uma identificação com a personagem da mãe no filme, onde de alguma forma, a pessoa se colocou no lugar da personagem, seja pela identificação pela própria história ou por uma profunda empatia”, conta.

Mais sobre o Filme

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Making Of – atores durante as gravações

A diretora conta que a ideia surgiu depois de ouvir, de uma amigo (Marcelo Sando), a história de David, uma criança autista que na época tinha 6 anos. “Fiquei fascinada pelos momentos que Marcelo passou com David, do jeito e das maneiras que encontrou para conviver com o menino e compreender melhor seu mundo, que muitas vezes nos parece muito distante. Guardei a história de David em minha memória e o tempo passou. Para fazer Arthur e o Infinito, juntei duas coisas: a história de David e a ideia de fazer um filme sobre compaixão. De acordo com a pesquisa que fiz, percebi que em muitos casos a ligação materna é muito forte, é a mãe em várias famílias que assume a responsabilidade de cuidar da criança na maior parte do tempo. Nessa relação, que muitas vezes é difícil e intensa, é necessário compaixão para que haja uma convivência harmônica”, conta.

A direção de arte do filme contou com uma equipe, coordenada pelo professor da AIC, Dicezar Leandro e com vários alunos dos cursos de direção de arte da escola. “Pensar na fotografia junto com o Rogerio Che e na direção de arte junto com a Caravana (equipe de arte coordenada pelo prof. Dicezar) foi bem especial. Foram muitas reuniões e encontros para decidir a estética do filme e chegarmos ao conceito final, de que toda a paleta de cores e a fotografia seriam de cores frias, voltadas para o azul e o cinza. O filme conta a história daquela família logo depois do diagnóstico do filho, ou seja, um momento de aceitação, normalmente bem difícil para as famílias, por isso das escolhas”.

Outra questão importante no processo de pré-produção foram os e meses de ensaios com os protagonistas. Além dos ensaios, muitas visitas a instituições foram gravadas, com o intuito de que o material servisse de apoio e referência para os atores, principalmente para o Erich, que fez o papel de Arthur. “Eu mostrava os vídeos para ele e aos poucos ele foi entendendo um pouco do autismo, os ensaios eram gravados e assim que terminados eu enviava o vídeo para algumas mães e instituições que me apontavam o que estava bom, o que ainda não estava, o que precisava melhorar e com isso fomos desenvolvendo o personagem até que estávamos prontos para iniciar as gravações”, conta Julia.

Arte e Transformações Sociais

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Julia Rufino, elenco e equipe durante as gravações

Um dos objetivos do filme é gerar conversas, reflexões e discussões. Para a diretora, a arte sempre teve um papel importante na sociedade, que é a de pensar e repensar a forma como nos relacionamos com nós mesmos e com o mundo. “Acredito que estamos em um momento único da história da humanidade, onde se tem acesso a uma quantidade imensa de informação, onde a comunicação é instantânea e a linguagem audiovisual tem um grande poder de influência sobre as pessoas. Acredito que os filmes de ficção e os documentários tem a possibilidade de gerar movimentos e inspirar pessoas a transformarem a realidade que vivem”, finaliza.

* Matéria Publicada na edição 163 da Revista ZOOM. Fotos Divulgação do filme.