Ariel Henrique e Samanta do Amaral no terceiro dia da Semana de Cinema e Mercado

Para completar esses dias de puro aprendizado, a Academia Internacional de Cinema (AIC) recebeu dois profissionais da área técnica, são eles: Ariel Henrique e Samanta do Amaral. Os convidados apresentaram um tema bastante esquecido por todos, a pós-produção e mostraram como essa etapa do processo do filme é tão importante quanto o restante.

Ariel e Samanta na AIC - Foto: David Corredato Takata

Ariel e Samanta na AIC – Foto: David Corredato Takata

Samanta comenta sobre o primeiro filme que utilizou o processo digital aqui no Brasil, “Cidade de Deus”, e Cesar Charlone, o fotógrafo, oriundo da publicidade, trouxe a imagem estilizada para o cinema, “vimos que foi a partir desse filme que se iniciou a exploração desse conceito de se estilizar a imagem no cinema” conta ela.  De qualquer forma, a profissional chama a atenção para o fato de que, o fotógrafo precisa ter bem definido o que quer para o filme, pois o processo de tratamento de cor estilizado ou não, agrega muito valor ao produto. Na sequência, ela passa alguns filmes mostrando a diferença entre o antes e depois. E Ariel também mostra o que os efeitos sonoros podem acrescentar ao filme. Usou o longa de terror, o “Isolados”, de Tomás Portella como exemplo, e exibiu uma cena três vezes. A primeira, somente com o diálogo, a segunda já conta com os sons diegéticos, ou seja, todo o universo sonoro que é perceptível pelos personagens em cena, tais como a paisagem sonora (o som dos carros numa cidade, o ruído de uma multidão, os pássaros no campo, a música num bar, etc.), e a terceira versão, já trazia o elemento música. Foi bastante perceptível aos presentes a diferença e como o áudio valoriza a mensagem que o filme quer transmitir.

 FORMAÇÃO DOS NOVOS PROFISSIONAIS

Foi perguntado aos convidados se eles achavam que os profissionais chegam ao mercado despreparados, e Samanta lembrou o caminho que percorreu, são dez anos de estrada, que começaram como assistente, exigência essa que servia para se dar um tempo de aprender tudo, “o que não elimina o fato de ter que continuar estudando, pois hoje a tecnologia muda muito rapidamente e exige preparação constante, por outro lado, devido à democratização dos meios, ficou mais fácil se tornar diretor de fotografia, diretor, etc., e talvez essa rapidez com que se chega ao set não tem ajudado os profissionais a se preparar melhor”, ela frisa a importância da constante busca pelo conhecimento seja por meio do estudo, seja na prática, é a junção dos dois fatores que irá produzir profissionais capacitados. E Ariel também engrossa o coro quando responde à questão: “tem o pessoal que quer trabalhar áudio, mas não tem conhecimento técnico e tem aqueles que possuem conhecimento técnico, mas lhes falta entender a linguagem. Por isso juntar prática à teoria”.

Ariel e Samanta na AIC - Foto: David Corredato Takata

Ariel e Samanta na AIC – Foto: David Corredato Takata

 BRIEFING

Tanto Ariel quanto Samanta trabalham com briefing, porém nada os impede de sugerir mudanças e inserir sons que se percebem bastante característicos. No caso da cor, Samanta conta que no filme “Isolados” fez uma mudança de dia para noite em uma cena, onde o personagem leva uma porrada e cai desacordado, para ela, como já era final do dia, e não se sabia quanto tempo ele permaneceu assim, a profissional sugeriu a mudança, o que foi acatada com entusiasmo, mas não sem surpresa pelo diretor e fotógrafo que não tinham percebido essa elipse de tempo. Já para Ariel e seu áudio, todos os trabalhos também são feitos com briefing antes para orientar o técnico, mas independente disso, “tem o básico que o editor faz, como a utilização dos sons clichês; aqueles que quando utilizados, o espectador já consegue entender o recado,  como por exemplo: se for utilizado grilo dará leitura de noite, se for colocada cigarra, dará leitura de dia, e se for utilizado passarinho, é começo da manhã ou final de tarde”.

 TEMPO PARA PÓS

Para a correção da cor, a profissional diz utilizar dez dias para realizar um bom trabalho, diz ela: “um longa é dividido em cinco rolos de 20 minutos, nesses dez dias são 02 dias dedicados para 20 minutos de matéria, duas diárias de 06 a 08 horas. No primeiro dia, inicio o equilíbrio de câmera e já começo a dar uma intenção do que vai ser o tratamento da imagem do material e o segundo dia de cada rolo, é para fazer a parte mais poderosa do tratamento de cor e de aprovar o material”.

Como Ariel diz, num mundo ideal, seriam dois meses para a edição do som e mais quatro semanas para a mixagem. “Tem um editor de diálogo editando som direto, o pessoal do foley gravando e editando foley, um editor recriando ambiências. E em paralelo, a gente fazendo listas do que no som direto não ficou legal e teríamos que regravar. Mas tem sido muito frequente diminuir o tempo devido aos orçamentos apertados.”

Ariel e Samanta na AIC - Foto: David Corredato Takata

Ariel e Samanta na AIC – Foto: David Corredato Takata

A PÓS NÃO SALVA, MAS VALORIZA E AGREGA O PRODUTO FINAL

Durante toda a conversa, os dois chamaram bastante atenção para essa situação, “a pós não salva, ou pelo menos não deveria, mas agrega e valoriza o produto final.” Para Samanta, o tempo também é importante para se realizar um bom trabalho, “muitas vezes o material chega para nós porque entrou num festival, ou vai ter uma exibição, e não se tem o tempo necessário para trabalhar. A questão do orçamento é sempre negociável, mas o tempo não é negociável, eu peço dez dias para fazer um longa. Por isso eu quero dar um conselho a todos vocês que estão começando na profissão, pensem na pós, já na fase de pré-produção, para que tudo seja bem feito.

 CONSELHO

Ariel dá conselho para quem está começando agora: “E se fosse para dar uma dica para quem está tentando trabalhar com áudio, é importante ir às finalizadoras ou procurar estúdios e tentar estágios, por exemplo. Outra coisa também, é ir ao cinema; a gente se acomoda um pouco, pois é muito mais barato ficar em casa e assistir ao NETFLIX, do que pagar 30 reais para ir ao cinema e ver um filme, e faz toda a diferença ir até lá e descobrir como o som está sendo feito.” Além disso, para Samanta é importante construir repertório, “vejam de tudo, pois a gente pode tirar coisas boas de produtos ruins, e aprender como não deve ser feito”.