A queda das fronteiras audiovisuais foi destaque na palestra de Fernando Severo

O diretor curitibano Fernando Severo foi o convidado da segunda noite da Semana de Orientação. Severo, que começou a fazer cinema ainda na década de 1980, contou um pouco sobre sua experiência em edição, direção e roteirização de curtas e longas-metragens e sobre as dificuldades de fazer filmes antes mesmo de existir o videocassete. “Também sou professor e vejo os alunos, principalmente da Universidade Pública em que leciono, reclamar da estrutura, dos equipamentos, da falta de recurso, disso, daquilo. Eu enxergo de uma outra perspectiva e acho que os alunos de cinema de hoje são privilegiados. Eu comecei a fazer cinema em Super8, época em que ninguém patrocinava sequer uma revelação de película e que todo o processo técnico era muito caro. Além disso, tudo era centrado em São Paulo, tinha que deslocar equipamento, equipe… A perda do rigor do cinema, que vocês vivenciam hoje, é uma das maiores vantagem da geração de vocês”, defendeu Severo.

Fernando Severo foi mais longe e agitou o estúdio da AIC, deixando os puristas de plantão de “cabelo em pé”, ressaltando as vantagens da revolução digital, das novas tecnologias, da internet e das redes sociais. “Hoje existe câmeras como a 5D, por exemplo, que permitem filmar com profundidade de campo e com uma excelente qualidade. A queda das fronteiras audiovisuais, do que é cinema, do que é videoarte, precisa ser visto com um pouco mais de otimismo. Deve ser um ponto positivo, não negativo. O público não está focado na qualidade técnica absoluta, não exige 35mm… Além disso, você pode mostrar seu trabalho mundialmente, a internet tá aí pra isso”, afirmou o diretor.

Da mesma forma que Thais Fuji, no primeiro dia do evento, Severo também aconselhou o público a “saber vender” seus filmes, e “voltar ao passado para produzir o futuro”, ou seja, conhecer tudo o que já foi feito de bom, ter referências, assistir aos clássicos e sempre pesquisar e estudar muito. Ele também defendeu o meio acadêmico como um ambiente propício às ideias produtivas. “É muito bom estar em um meio pensante, onde você encontra pessoas que podem fazer parte da sua equipe”. Ele arrancou risos da plateia ao falar, por exemplo, que a cantina é um dos lugares mais importantes de uma escola, pois lá é onde se debate o assunto da aula, onde existe discussão, troca de ideias, de pensamentos.

Para terminar, o diretor dá duas dicas. A primeira: “Se você produziu algo bom de verdade, não seja modesto. Não pense que alguém irá te ajudar. O mundo é muito competitivo e o universo do cinema é gigantesco. Não pense que o filme irá se vender sozinho ou que alguém irá descobrir você”. A segunda dica, que talvez seja mais uma questão para reflexão pessoal de cada um: “O que você quer dizer? Que tipo de carreira você busca? A meu ver, a coisa mais difícil do cinema hoje é ter o que dizer. É a fragilidade dos conceitos, a dificuldade de falar sobre o mundo, de focar, de falar sobre um assunto. Por isso você precisa saber muito bem o que quer dizer e que tipo de carreira quer trilhar”.

*Fotos: Alessandra Haro